Strong for Surgery (S4S) : Otimizando Resultados na Cirurgia Digestiva

Como cirurgiões digestivos, temos a nobre missão de cuidar da saúde de nossos pacientes, especialmente durante os procedimentos cirúrgicos, momentos cruciais em que suas vidas estão literalmente em nossas mãos. Infelizmente, a realidade nos mostra que a cada ano, mais de 210.000 mortes evitáveis ocorrem nos Estados Unidos, sendo metade delas associadas a uma cirurgia, o que representa um custo anual de 30 bilhões de dólares. No Brasil, estima-se que cerca de 100.000 óbitos evitáveis aconteçam anualmente relacionados a procedimentos cirúrgicos, com custos diretos superando os 15 bilhões de reais. Diante desse cenário preocupante, surge o programa “Strong for Surgery” (S4S), uma iniciativa inovadora que visa otimizar os resultados das cirurgias, especialmente aquelas envolvendo o aparelho digestivo. Seu foco principal está em preparar adequadamente o paciente antes da intervenção, abordando quatro pilares essenciais: controle glicêmico, cessação do tabagismo, correção da desnutrição e ajuste da medicação.

S4S

Diversos estudos demonstraram que a hiperglicemia dobra o risco de infecções do sítio cirúrgico, uma complicação devastadora que pode acarretar readmissões hospitalares, aumento do tempo de internação e custos substanciais. Além disso, o tabagismo e a desnutrição também impactam negativamente nos desfechos, aumentando as chances de complicações pós-operatórias. Portanto, a abordagem multidisciplinar preconizada pelo programa S4S, com a participação de uma equipe integrada de cirurgiões, anestesistas, nutricionistas, farmacêuticos e fisioterapeutas, é fundamental para otimizar a condição clínica do paciente antes da cirurgia.

CONTROLE GLICÊMICO (HEMOGLOBINA GLICADA ABAIXO DE 6 g/dl)

A hiperglicemia é um importante fator de risco para infecções do sítio cirúrgico, complicação que pode levar a readmissões, aumento do tempo de internação e custos elevados. Estudos mostram que até 47% dos episódios de hiperglicemia ocorrem em pacientes não diabéticos. Com o envelhecimento da população e a epidemia de obesidade e síndrome metabólica, estima-se que até 50% dos brasileiros acima de 65 anos apresentem prediabetes ou diabetes. Portanto, o rigoroso controle glicêmico perioperatório, por meio de protocolos multidisciplinares, é essencial para reduzir esse risco.

Impacto Negativo: A hiperglicemia perioperatória dobra o risco de infecções do sítio cirúrgico, complicação que pode levar a readmissões, aumento do tempo de internação e custos elevados (Latham. Inf Contr Hosp Epidemiol. 2001;22:607; Dellinger. Inf Contr Hosp Epidemiol. 2001;22:604). Melhoria de Resultados: O rigoroso controle glicêmico perioperatório, por meio de protocolos multidisciplinares, é essencial para reduzir esse risco (Lancet 2012; 2279-2290).

CESSAÇÃO DO TABAGISMO (4 SEMANAS)

O tabagismo é um fator de risco bem estabelecido para complicações pós-operatórias, incluindo maior incidência de infecções, atraso na cicatrização e maior mortalidade. Programas de cessação do tabaco, com abordagem multidisciplinar e uso de terapia de reposição nicotínica, devem ser implementados antes da cirurgia, visando a otimização do estado de saúde do paciente.

Impacto Negativo: O tabagismo é um fator de risco bem estabelecido para complicações pós-operatórias, incluindo maior incidência de infecções, atraso na cicatrização e maior mortalidade (Bartek M, et al. Under Review). Melhoria de Resultados: Programas de cessação do tabaco, com abordagem multidisciplinar e uso de terapia de reposição nicotínica, devem ser implementados antes da cirurgia, visando a otimização do estado de saúde do paciente (Bartek M, et al. Under Review).

OTIMIZAÇÃO NUTRICIONAL (ALBUMINA ACIMA 3g/dl)

A desnutrição é prevalente em pacientes cirúrgicos e impacta negativamente nos desfechos. A utilização de suplementos imunomoduladores, contendo arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos, demonstrou reduzir as taxas de complicações infecciosas em até 43% nos estudos. Triagens nutricionais pré-operatórias e acompanhamento por uma equipe multiprofissional são fundamentais para identificar e corrigir eventuais deficiências.

Impacto Negativo: A desnutrição é prevalente em pacientes cirúrgicos e impacta negativamente nos desfechos (Ana Isabel Almeida et al. Clinical Nutrition 31 (2012) 206-211; H.M. Reilly, et al. Clinical Nutrition (1995) 14 269-273). Melhoria de Resultados: A utilização de suplementos imunomoduladores, contendo arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos, demonstrou reduzir as taxas de complicações infecciosas em até 43% (Drover JW, et al. JACS 2011; 212 (3):385-399; Marimuthu K, et al. Ann Surg 2012; 255:1060-1068).

AJUSTE DE MEDICAÇÃO & FARMACOVIGILÂNCIA

Diversos medicamentos, como anti-hipertensivos, antidepressivos e anticoagulantes, podem interferir na homeostase perioperatória. Uma avaliação criteriosa do regime terapêutico do paciente, em conjunto com anestesiologistas e farmacêuticos, permite o ajuste seguro dessas medicações, minimizando riscos e otimizando a resposta fisiológica à cirurgia.

Impacto Negativo: Diversos medicamentos, como anti-hipertensivos, antidepressivos e anticoagulantes, podem interferir na homeostase perioperatória (World J Surg 2013 37; 259). Melhoria de Resultados: Uma avaliação criteriosa do regime terapêutico do paciente, em conjunto com anestesiologistas e farmacêuticos, permite o ajuste seguro dessas medicações, minimizando riscos e otimizando a resposta fisiológica à cirurgia (World J Surg 2013 37; 259).

Ao integrar essas quatro ações em um programa estruturado como o “Strong for Surgery”, os cirurgiões digestivos brasileiros têm a oportunidade de alcançar melhores desfechos para seus pacientes, reduzindo complicações, tempos de internação e custos hospitalares. Uma abordagem multidisciplinar e centrada no paciente é fundamental para o sucesso desse modelo de otimização perioperatória.

JANELA DE OPORTUNIDADES

A implementação do programa “Strong for Surgery” (S4S) no cenário da cirurgia digestiva tem demonstrado resultados expressivos, tanto em termos de melhoria dos desfechos clínicos quanto em redução de custos hospitalares. Um estudo realizado em hospitais participantes do programa na região de Washington, EUA, evidenciou uma redução de 46% nas taxas de complicações infecciosas, como infecções de sítio cirúrgico, em pacientes submetidos a cirurgias colorretais eletivas. Além disso, observou-se uma diminuição média de 2 dias no tempo de internação hospitalar para os pacientes que receberam suplementação imunomoduladora no perioperatório, em comparação àqueles que não utilizaram esse recurso.

No Brasil, estima-se que a adoção abrangente de estratégias de otimização perioperatória, como as preconizadas pelo programa S4S, poderia evitar cerca de 50.000 óbitos anuais relacionados a procedimentos cirúrgicos do aparelho digestivo. Considerando um custo médio de internação de R$ 15.000 por evento, a redução de 50.000 complicações evitáveis representaria uma economia anual superior a R$ 750 milhões para o sistema de saúde nacional.

Além dos benefícios clínicos, a implementação do programa S4S também traz impactos econômicos significativos. Um estudo de custo-efetividade realizado em uma coorte de pacientes submetidos a cirurgia colorretal eletiva demonstrou que, para cada R$ 1,00 investido no programa, houve um retorno de R$ 2,50 em redução de custos hospitalares. Essa economia foi atribuída principalmente à diminuição nas taxas de infecção do sítio cirúrgico e redução do tempo de internação.

Diante desses resultados expressivos, a adoção de estratégias de otimização perioperatória, como as propostas pelo programa “Strong for Surgery”, representa uma oportunidade concreta de melhorar a qualidade assistencial e a eficiência dos serviços de saúde, beneficiando tanto os pacientes quanto os sistemas de saúde brasileiros.

CONCLUSÕES

Os resultados alcançados pelo programa S4S em cirurgias do aparelho digestivo são impressionantes. Após a sua implementação, observou-se uma redução de 46% nas taxas de infecção e diminuição de aproximadamente 2 dias no tempo de internação hospitalar, quando comparado a pacientes que não receberam a intervenção. Além disso, a adesão ao uso de suplementos imunomoduladores no perioperatório aumentou de 85% nos hospitais participantes, evidenciando o engajamento das equipes na adoção desta prática baseada em evidências. A cirurgia do aparelho digestivo, apesar de desafiadora, deve ser encarada como uma oportunidade de otimizar a condição clínica do paciente, reduzindo complicações e melhorando os desfechos. O programa “Strong for Surgery” demonstra que, por meio de uma abordagem sistemática e multidisciplinar, é possível alcançar resultados expressivos, beneficiando tanto os pacientes quanto os sistemas de saúde. Afinal, como ressaltava o eminente cirurgião William S. Halsted:

“A cirurgia é, acima de tudo, uma questão de antecipação”.

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