Introdução
A apendicectomia laparoscópica consolidou-se como o padrão-ouro no tratamento da apendicite aguda, sobretudo em centros com acesso à tecnologia minimamente invasiva. Com benefícios amplamente documentados — como menor dor pós-operatória, redução do tempo de internação e menor incidência de infecção de ferida —, a técnica exige, contudo, treinamento e atenção a detalhes técnicos. Este artigo oferece truques e dicas práticas que podem otimizar a performance do cirurgião, reduzir complicações e melhorar a curva de aprendizado da equipe assistente.
1. Posicionamento do Paciente e da Equipe
- Decúbito dorsal com leve Trendelenburg e rotação à esquerda facilita a exposição do quadrante inferior direito.
- Fixe o braço direito do paciente ao corpo para permitir amplo espaço de movimentação do cirurgião.
- Cirurgião à esquerda do paciente, assistente ao lado da perna esquerda, monitor preferencialmente à direita ou à cabeceira, na linha dos ombros.
Dica: Ajuste fino da inclinação da mesa pode ser decisivo para deslocar alças e expor o ceco sem necessidade de manobras agressivas.
2. Posicionamento dos Trocárteres
- Um padrão eficiente inclui:
- Trocárter de 10 mm umbilical (ótica).
- Trocárter de 5 mm em hipogástrio (instrumentação dominante).
- Trocárter de 5 mm em flanco esquerdo (tração e dissecção).
Truque: Em pacientes obesos, insira o trocárter ótico com cuidado em ângulo oblíquo para evitar desinserção do pneumoperitônio e garantir estabilidade.
3. Estratégias de Exposição
- Identifique o teniae coli do ceco e siga até a base do apêndice.
- Use pinça atraumática para tração superior do apêndice, expondo sua base.
- Em casos de aderências, libere-as com energia monopolar delicada ou tesoura, evitando avulsões inadvertidas.
Dica de ouro: Evite “lutar” contra aderências retrocecais. Mude o plano, reposicione a câmera, varie o ângulo de dissecção. Tempo gasto com exposição segura evita complicações graves.
4. Controle do Pedículo e Secção Apendicular
- O método mais utilizado é o uso de duas ligaduras com endoloop ou clips poliméricos (Hem-o-lok®), seguido de secção entre eles.
- Alternativamente, grampeadores laparoscópicos podem ser usados, especialmente em apêndices friáveis ou bases espessadas.
Truque técnico: Em apêndices muito inflamados, realize a ligadura mais distal antes da proximal, para reduzir o risco de ruptura ou vazamento ao manipular a base.
5. Retirada e Proteção da Cavidade
- Retire o apêndice com saco cirúrgico sempre que possível, evitando contaminação do trajeto do trocárter.
- Irrigue abundantemente a loja apendicular se houver peritonite localizada ou pus livre.
- Se necessário, coloque dreno tubular por 24 a 48 horas.
Dica prática: Em caso de dúvida quanto à integridade da base, deixe um fragmento do ceco visível e documente o aspecto final com imagem.
6. Situações Especiais
- Apêndice retrocecal: requer liberação ampla da reflexão lateral direita do cólon.
- Apendicite perfurada com abscesso: considere drenagem inicial guiada por imagem e apendicectomia em intervalo.
- Apendicite gestacional: ideal até o segundo trimestre. Atenção ao deslocamento anatômico do apêndice.
Truque anatômico: Em gestantes ou crianças, a mobilidade intestinal pode mascarar a localização clássica. Reforce a busca sistemática do apêndice pela convergência das teníases do ceco.
Conclusão
A apendicectomia laparoscópica é uma cirurgia segura, eficaz e que continua evoluindo com a incorporação de técnicas assistidas por imagem, navegação e inteligência artificial. No entanto, sua execução requer atenção a detalhes aparentemente simples, que fazem toda a diferença nos desfechos clínicos. O domínio dos truques e dicas técnicas aqui apresentados contribui significativamente para uma prática cirúrgica mais segura, eficiente e baseada em excelência técnica.
“A simplicidade técnica não dispensa o rigor; é justamente na cirurgia simples que se exige a perfeição.” — René Leriche
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