O Imperativo do Sulco de Rouvière e a Visão Crítica de Segurança
Autor: Prof. Dr. Ozimo Gama
Afiliação: Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva
Introdução
A colecistectomia laparoscópica (CL) permanece como um dos procedimentos cirúrgicos mais executados globalmente. No entanto, sua ubiquidade não mitiga riscos inerentes; a variação anatômica dos ductos biliares, combinada à identificação visual incorreta, continua a precipitar complicações graves, notadamente as lesões iatrogênicas das vias biliares[1]. Neste cenário, a segurança do paciente transcende a destreza manual, residindo na identificação rigorosa de marcos anatômicos imutáveis. Entre estes, o sulco de Rouvière (SR) emerge não apenas como detalhe morfológico, mas como farol essencial para a orientação cirúrgica segura[2].
A Nomenclatura e a Realidade Anatômica

A precisão cirúrgica exige precisão anatômica. Na literatura, o SR é referenciado sob diversas nomenclaturas, incluindo “incisura dextra de Gans”[7] e, originalmente por Henri Rouvière, como “le sillon du processus caudé”[5]. Embora textos clássicos apresentem dados inconsistentes, estudos contemporâneos demonstram a presença do SR em até 80% dos fígados[3,6]. Tal prevalência torna o reconhecimento deste marco uma competência obrigatória. A relevância topográfica do SR é crítica, estabelecendo um divisor de águas anatômico: o ducto e a artéria cística localizam-se anterossuperiormente ao sulco, enquanto o ducto biliar comum (CBD) reside abaixo do seu nível. Evidências sugerem que dissecções iniciadas ventralmente ao SR reduzem significativamente a incidência de lesões ao CBD[2]. Ademais, o marco é instrumental para a execução segura de ressecções hepáticas segmentares[4].
A Integração com a Visão Crítica de Segurança (CVS)
A técnica da Critical View of Safety (CVS), preconizada por Strasberg, é o padrão ouro para minimizar riscos de lesão biliar[1]. Contudo, a aplicação da CVS deve ser ancorada em marcos confiáveis. Variações da árvore biliar extra-hepática afetam até um terço dos pacientes[3], mas o SR tende a manter-se no mesmo plano do ducto hepático comum e do CBD, facilitando a orientação tridimensional. A identificação do SR deve ser o passo preliminar que habilita a construção segura da CVS, mormente em casos de anatomia distorcida por inflamação.
Estratégias de Contingência: A Linha R4U
Em casos onde o SR está obscurecido por fibrose ou aderências, a segurança não pode ser comprometida. A linha R4U — estendendo-se da fissura umbilical para a direita do hilo — apresenta-se como alternativa viável para delimitar um plano seguro de dissecção[2]. Todavia, a utilização eficaz da linha R4U exige profundo conhecimento da anatomia hepática e treinamento contínuo em técnicas de segurança.
Conclusão
A prevenção de lesões na CL exige uma sistematização que transcende a técnica básica. A identificação rotineira do Sulco de Rouvière e a adesão estrita à CVS são imperativos éticos e técnicos. Ao integrar o conhecimento anatômico clássico com estratégias modernas, elevamos o padrão de cuidado. Como nos lembra a sabedoria cirúrgica secular:
“O cirurgião que ignora a anatomia esculpe o corpo humano como um cego esculpe a madeira.” — Guy de Chauliac (1300–1368), Chirurgia Magna.
Referências Bibliográficas
Referências
- Strasberg, S. M., et al. “The Critical View of Safety in Laparoscopic Cholecystectomy.”
- Hugh, T. B. “Anatomical Landmarks for Safe Laparoscopic Cholecystectomy.”
- Zubair, M., et al. “Anatomical Variations in the Extrahepatic Biliary Tree.”
- Couinaud, C. “Segmental Anatomy of the Liver.”
- Rouvière, H. “Le sillon du processus caudé.”
- Reynaud, C., Coucoravas, G., Giuly, J., et al. “Incisura Dextra de Gans.”
- Hugh, T. B. “Minimal Common Bile Duct Injury During Laparoscopic Cholecystectomy.”
- Gans, H. “Incisura Dextra in Classic Anatomical Literature.”