Arquivos Mensais: outubro \06\-03:00 2014

Metabolismo Perioperatório

NUTRIÇÃO PARENTERAL


A melhor forma de se conhecer as necessidades energéticas é através de sua medida por calorimetria indireta, cada vez mais disponível em nosso ambiente hospitalar. Quando não se dispõe de calorimetria indireta, é possível estimar o gasto energético por meio de fórmulas estimativas que levam em conta, entre outros fatores, o peso e altura corpóreos, idade e sexo. Das diferentes fórmulas disponíveis, a equação de Harris-Benedict tem sido muito usada. Para homens a formula é 66,5 + (13.8 x peso [kg])+(5,0 x altura [cm]) – (6,8 x idade [anos]). Para mulheres a formula é diferente: 655 + (9,6   x peso [kg]) + (1,7 x altura [cm]) – (4,7 x idade [anos]). A regra de bolso (30-35 kcal/kg/dia) é mais prática e também é muito utilizada. No período pré-operatório a oferta de proteína deve ser em torno de 1,0-1,5 g/Kg/dia e, após trauma ou intervenção cirúrgica aumenta, podendo chegar até 2,0 g/Kg/dia. Em pacientes com SIRS moderado, a oferta calórica deve ser menor (25-30 kcal/kg/dia). Pacientes em estresse importante (SIRS grave, sepse) devem receber 20-25 kal/kg/dia e 1,5 a 2,0 g de proteínas/kg/dia. Deve-se evitar em pacientes gravemente desnutridos aporte rápido de calorias e proteínas (síndrome da realimentação). Nesses pacientes a oferta deve ser cautelosa com controle diário de fósforo, magnésio e potássio.

Aula: Suporte Nutricional Perioperatório

Tratamento Cirúrgico da Hemorragia digestiva alta por varizes esofágicas | Hipertensão Porta

 

Hipertensão Porta
Varizes

Introdução

A hipertensão portal é uma das principais complicações das doenças hepáticas crônicas e representa um dos maiores desafios da cirurgia do aparelho digestivo. Define-se classicamente como um aumento do gradiente de pressão portossistêmico acima de 5 mmHg, sendo clinicamente significativo quando ultrapassa 10–12 mmHg, nível a partir do qual surgem varizes gastroesofágicas e risco de hemorragia digestiva alta.

A cirrose hepática responde por cerca de 90% dos casos de hipertensão portal no mundo, sendo também a principal etiologia no Brasil. Estima-se que aproximadamente 50–60% dos pacientes cirróticos desenvolvem varizes esofágicas, e cerca de 30% destes apresentarão episódio de sangramento varicoso ao longo da vida.

Apesar dos avanços na terapia endoscópica e farmacológica, o tratamento cirúrgico da hipertensão portal permanece uma ferramenta essencial em casos selecionados, particularmente quando ocorre falha terapêutica ou quando há indicações específicas relacionadas à etiologia e à função hepática do paciente.

Neste artigo de educação médica continuada revisaremos os principais aspectos do tratamento cirúrgico da hipertensão portal, com foco em indicações, resultados comparativos entre técnicas e implicações na prática atual da cirurgia digestiva.

ARTIGO DE REVISÃO – HIPERTENSÃO PORTAL

Fisiopatologia da Hipertensão Portal

A hipertensão portal resulta do aumento da resistência ao fluxo portal associado ou não ao aumento do fluxo sanguíneo esplâncnico. Os mecanismos principais incluem:

  1. Aumento da resistência intra-hepática
    • fibrose e distorção arquitetural na cirrose
    • compressão sinusoidal
    • disfunção endotelial hepática
  2. Aumento do fluxo portal
    • vasodilatação esplâncnica mediada por óxido nítrico
  3. Formação de circulação colateral portossistêmica
    • desenvolvimento de varizes esofagogástricas
    • shunts espontâneos

As principais manifestações clínicas incluem:

  • hemorragia digestiva alta por varizes
  • ascite
  • encefalopatia hepática
  • hiperesplenismo

O tratamento cirúrgico visa reduzir a pressão portal ou interromper o fluxo varicoso, prevenindo novos episódios hemorrágicos.

Indicações do Tratamento Cirúrgico

Com o advento da ligadura elástica endoscópica, da terapia farmacológica vasoativa e do TIPS, as indicações cirúrgicas tornaram-se mais restritas. Atualmente, as principais indicações incluem:

A indicação cirúrgica atual exige a aplicação rigorosa de escores prognósticos, notadamente o Child-Pugh e o MELD. Pacientes Child-Pugh A (MELD < 10 a 15) possuem baixo risco cirúrgico, sendo candidatos ideais para cirurgias eletivas, incluindo shunts e desvascularização. Por outro lado, pacientes descompensados (Child-Pugh C ou MELD > 19-20) apresentam alto risco de mortalidade pós-operatória, inclusive pós-TIPS, sendo o transplante hepático a via mandatória. O grande desafio recai sobre os pacientes limítrofes (Child-Pugh B ou MELD 15-19). Neste estrato de risco intermediário, shunts cirúrgicos tendem a oferecer maior sobrevida a longo prazo para aqueles com função hepática estável, enquanto o TIPS demonstra maior benefício na sobrevida de pacientes com ascite refratária ou sangramento agudo.

AULA: TRATAMENTO CIRÚRGICO DA HIPERTENSÃO PORTAL

 Na prática contemporânea da cirurgia hepatobiliar, o manejo da hipertensão portal é multidisciplinar, envolvendo:

  • hepatologistas
  • endoscopistas
  • radiologistas intervencionistas
  • cirurgiões digestivos

O algoritmo terapêutico atual pode ser resumido da seguinte forma:

  1. Primeira linha
    • terapia farmacológica
    • ligadura elástica endoscópica
  2. Falha terapêutica
    • TIPS
  3. Pacientes selecionados
    • shunt cirúrgico
    • desvascularização
  4. Doença hepática avançada
    • transplante hepático

O cirurgião digestivo continua desempenhando papel fundamental, sobretudo em centros terciários e unidades de referência hepatobiliar.

Pontos-chave para o Cirurgião Digestivo

  • A hipertensão portal clinicamente significativa ocorre com gradiente >10–12 mmHg
  • O sangramento varicoso continua sendo a complicação mais grave
  • TIPS é hoje a principal estratégia de resgate após falha endoscópica
  • Shunts cirúrgicos permanecem relevantes em pacientes selecionados
  • A desvascularização gastroesofágica ainda possui papel importante na esquistossomose
  • Transplante hepático é o único tratamento curativo da hipertensão portal associada à cirrose

Conclusão

Embora os avanços na radiologia intervencionista e na endoscopia tenham modificado profundamente o manejo da hipertensão portal, o tratamento cirúrgico permanece indispensável em situações específicas. A seleção adequada do paciente, baseada em função hepática, etiologia da hipertensão portal e recursos disponíveis, continua sendo o fator mais importante para bons resultados. Para o cirurgião digestivo moderno, compreender as diferentes estratégias — desde shunts portossistêmicos até o transplante hepático — é essencial para oferecer um tratamento individualizado e seguro.

PROF. DR. OZIMO GAMA

Gastroenterologia Cirúrgica

“O transplante de fígado e as complexas derivações portais nos ensinaram que não há limites absolutos na cirurgia, apenas fronteiras do conhecimento que aguardam para ser ultrapassadas com dedicação e ciência.” — Thomas Starzl

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