Câncer de Esôfago
Epidemiologia, Diagnóstico Precoce e a Complexidade do Tratamento Multimodal
Autor: Prof. Dr. Ozimo Gama
Categoria: Oncologia Cirúrgica / Cirurgia do Aparelho Digestivo
Tempo de Leitura: 9 minutos
Introdução
O esôfago, um tubo musculomembranoso de aproximadamente 25 a 30 centímetros, desempenha a função vital de transportar o bolo alimentar da hipofaringe ao estômago através de peristalse coordenada. Apesar de sua anatomia aparentemente simples, desprovida de serosa, este órgão é sítio de uma das neoplasias mais agressivas e desafiadoras para o cirurgião do aparelho digestivo: o câncer de esôfago. Esta patologia é caracterizada por sua latência clínica. Em fases iniciais, a doença é assintomática, o que retarda o diagnóstico e compromete o prognóstico. Para o estudante de medicina e o residente de cirurgia, compreender a dualidade histológica predominante — Carcinoma Epidermoide (CEC) versus Adenocarcinoma — e seus respectivos fatores de risco é fundamental para a suspeição clínica e o rastreamento adequado.
Epidemiologia e o Cenário Brasileiro
O câncer de esôfago é uma questão de saúde pública global, com alta incidência em regiões do “cinturão do câncer de esôfago” (que se estende da China ao norte do Irã). No Brasil, a doença mantém-se relevante e letal. Dados atualizados da Estimativa 2023-2025 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) projetam cerca de 10.990 novos casos anuais no país. A incidência é marcadamente maior no sexo masculino, ocupando a 6ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes nos homens (excetuando-se o câncer de pele não melanoma). Historicamente, o Carcinoma Epidermoide representa a grande maioria dos casos (cerca de 96% em séries históricas brasileiras), intimamente ligado ao tabagismo e etilismo. Contudo, observamos uma transição epidemiológica importante: o Adenocarcinoma distal tem apresentado um crescimento exponencial, impulsionado pela epidemia de obesidade e pela Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) que culmina no Esôfago de Barrett.
Fatores de Risco e Prevenção
A gênese do câncer esofágico é multifatorial, e a prevenção passa pela mitigação destes agentes:
- Tabagismo e Etilismo: A combinação destes dois fatores tem efeito sinérgico, multiplicando exponencialmente o risco para o tipo Epidermoide.
- Hábitos Alimentares: O consumo frequente de bebidas em temperaturas muito elevadas (comum em certas culturas regionais brasileiras) causa dano térmico crônico à mucosa. Dietas pobres em frutas e vegetais também são fatores predisponentes.
- Condições Precursoras:
- Acalasia: A estase alimentar crônica promove inflamação da mucosa.
- Tilose: Hiperqueratose palmoplantar associada a alto risco de CEC.
- Esôfago de Barrett: A metaplasia intestinal causada pelo refluxo ácido crônico é a lesão precursora do Adenocarcinoma.
- Outros: Síndrome de Plummer-Vinson, ingestão de cáusticos e infecção pelo HPV.
Quadro Clínico: O Desafio do Silêncio
O grande obstáculo no manejo do câncer de esôfago é a ausência de sintomas precoces. A distensibilidade da parede esofágica permite que o tumor cresça significativamente antes de causar obstrução. Quando sintomático, o paciente tipicamente apresenta:
- Disfagia Progressiva: Inicialmente para sólidos, evoluindo para pastosos e líquidos.
- Perda Ponderal: Frequentemente severa (>10% do peso corporal), devido à disfagia e ao catabolismo tumoral.
- Odinofagia e Dor Retroesternal: Indicativos de invasão local ou ulceração.
Propedêutica e Diagnóstico
O padrão-ouro para o diagnóstico é a Endoscopia Digestiva Alta (EDA) com biópsia.
Para o cirurgião e endoscopista, o uso de cromoscopia é vital. O Lugol é utilizado para corar o epitélio escamoso normal (rico em glicogênio), deixando áreas neoplásicas ou displásicas “não coradas” (amarelo-claras), facilitando a biópsia dirigida no Carcinoma Epidermoide. Já o Azul de Toluidina ou métodos digitais (NBI/FICE) auxiliam na detecção do Barrett e Adenocarcinoma precoces. O estadiamento deve ser rigoroso, utilizando Tomografia Computadorizada (tórax e abdome superior) e, idealmente, a Ecoendoscopia (Ultrassom Endoscópico) para avaliar a invasão da parede (T) e linfonodos regionais (N), além do PET-CT para exclusão de metástases à distância.
Abordagem Terapêutica: Multimodalidade
O tratamento depende estritamente do estadiamento e da localização tumoral (Cervical, Torácico ou Junção Esôfago-Gástrica).
- Doença Precoce (Tis/T1a): Pode ser passível de Ressecção Endoscópica (Mucosectomia ou ESD), preservando o órgão com taxas de cura elevadas (98%).
- Doença Localmente Avançada: A cirurgia isolada raramente é suficiente. O padrão atual envolve Terapia Neoadjuvante (Quimioterapia + Radioterapia pré-operatória) seguida de Esofagectomia com Linfadenectomia. A cirurgia é de alta complexidade, podendo ser realizada por via aberta, laparoscópica ou robótica (técnicas de Ivor Lewis ou McKeown).
- Doença Metastática ou Irressecável: O foco torna-se paliativo. A inserção de próteses autoexpansíveis (stents) endoscópicos restaura a via oral e a dignidade do paciente. A radioterapia e braquiterapia também desempenham papel no controle local da disfagia e sangramento.
Pontos-Chave para a Prática Cirúrgica
- Rastreamento: Pacientes com DRGE crônico (há mais de 5-10 anos) ou sintomas de alarme devem ser submetidos a endoscopia para rastreio de Barrett.
- Anatomia: O esôfago não possui serosa, o que facilita a invasão precoce de estruturas mediastinais (traqueia, aorta, pericárdio).
- Diagnóstico: Disfagia em adulto deve ser investigada com EDA imediatamente; não assuma benignidade sem visualização direta.
Conclusão
O câncer de esôfago exemplifica a necessidade da medicina moderna ser multidisciplinar. O cirurgião do aparelho digestivo não atua isolado, mas em concerto com o oncologista clínico, o radio-oncologista e o endoscopista. O diagnóstico precoce continua sendo a arma mais poderosa; contudo, mesmo em estágios avançados, a evolução das técnicas cirúrgicas e das terapias adjuvantes tem oferecido novas perspectivas de sobrevida e qualidade de vida aos nossos pacientes.
“A abordagem cirúrgica do esôfago foi, até recentemente, uma história de frustração. (…) O esôfago é um órgão que tolera a cirurgia mal, exceto quando executada com precisão absoluta.” — Ivor Lewis (1946), cirurgião galês que revolucionou o tratamento do câncer de esôfago com a técnica de esofagectomia transtorácica.
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