Introdução
Ambroise Paré é reconhecido como um dos pais da cirurgia moderna. Nascido em 1510, na pequena vila de Bourg-Hersent, próximo a Laval, na França, viveu em uma época de intensas transformações políticas, religiosas e científicas. Sem formação médica formal e sem domínio do latim — idioma obrigatório da ciência de seu tempo —, Paré rompeu barreiras sociais e acadêmicas para revolucionar a cirurgia com base em observação empírica, técnica precisa e humanidade.

Formação e Primeiros Anos no Hôtel-Dieu
Paré iniciou sua trajetória como aprendiz de cirurgião-barbeiro, profissão considerada de segunda classe em relação aos médicos da época. Em Paris, conseguiu, aos dezenove anos, ingressar no Hôtel-Dieu, o mais antigo hospital da cidade, onde se destacou pela habilidade manual e pela curiosidade científica. Nessa instituição, conviveu com feridos, queimados e amputados de guerra, experiências que moldaram sua prática futura. Posteriormente, serviu como cirurgião militar do exército francês nas campanhas da Itália entre 1536 e 1545, período em que faria suas descobertas mais marcantes.
A Descoberta do Tratamento das Feridas por Arma de Fogo
Até o século XVI, acreditava-se que as feridas por projéteis de pólvora eram envenenadas e deviam ser cauterizadas com ferro em brasa ou óleo fervente, conforme ensinava o cirurgião italiano Giovanni da Vigo. Durante uma campanha militar em 1536, Paré ficou sem óleo fervente e improvisou um curativo com gema de ovo, óleo de rosas e terebintina. Na manhã seguinte, observou que os pacientes tratados com essa mistura estavam tranquilos e com feridas limpas, enquanto os cauterizados sofriam febre e dor intensa. Esse acaso deu origem à primeira grande inovação de Paré: o abandono do cautério e do óleo fervente, substituídos por curativos mais suaves e fisiológicos — um avanço que reduziu a mortalidade e o sofrimento dos soldados.
A Ligadura das Artérias e a Hemostasia Moderna
Outro marco histórico atribuído a Paré é a introdução da ligadura de vasos sanguíneos nas amputações.
Até então, a hemostasia era obtida cauterizando os cotos com ferro em brasa — prática cruel e ineficaz. Em 1552, Paré começou a usar pinças e fios de seda para ligar os vasos, técnica descrita em seu livro Traité de la Chirurgie (1564). Ele também projetou instrumentos como o “Bec de Corbin” (“bico de corvo”), precursor dos hemostatos modernos. Esse método, apesar de rudimentar, representou a fundação da cirurgia vascular moderna e foi adotado em toda a Europa.
Reconhecimento Real e Ascensão Profissional
Graças à sua habilidade e serenidade, Paré ganhou prestígio na corte francesa. Serviu como cirurgião de quatro reis:
Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III.
Após a morte trágica de Henrique II em 1559 — em consequência de um ferimento craniano durante um torneio, atendido por Paré e Vesalius —, ele foi nomeado primeiro cirurgião do rei por Carlos IX e posteriormente cirurgião real de Henrique III, o posto mais alto que um cirurgião poderia ocupar na França renascentista. Mesmo sem formação universitária e alvo de críticas por “não saber latim”, Paré foi admitido na Confraria de São Cosme, onde obteve o título de mestre em cirurgia, superando o preconceito dos médicos letrados.
Obras, Invenções e Contribuições
Em 1564, publicou Dix Livres de la Chirurgie, e em 1575 reuniu todos os seus trabalhos em 27 volumes sob o título Les Œuvres de M. Ambroise Paré.
Entre suas contribuições destacam-se:
- Introdução da ligadura arterial;
- Uso de curativos terapêuticos não cáusticos;
- Desenvolvimento de membros artificiais e próteses oculares de metal e porcelana;
- Observação pioneira do fenômeno do “membro fantasma” em amputados;
- Correlação entre sífilis e aneurisma da aorta;
- Reintrodução de técnicas obstétricas antigas (como a versão podálica);
- Abordagem crítica ao uso de “pó de múmia” como medicamento, prática supersticiosa comum na época.
Fé, Humanismo e Legado
Ambroise Paré viveu em meio às Guerras Religiosas da França e sobreviveu ao Massacre da Noite de São Bartolomeu (1572), protegido pelo rei Carlos IX. Embora simpatizante dos huguenotes (protestantes calvinistas), manteve-se oficialmente católico para evitar perseguições. Seu lema, inscrito em sua cadeira na Confraria de São Cosme, resumia sua filosofia médica:
“Je le pansai, Dieu le guérit.”
(Eu o tratei, mas Deus o curou.)
Faleceu em 1590, aos 80 anos, em Paris. Foi sepultado com honras, e um monumento em sua memória foi erguido em Laval, sua cidade natal.
Conclusão
Ambroise Paré foi mais do que um cirurgião: foi um símbolo da medicina humanista, que uniu técnica e compaixão em uma era de brutalidade. Seu trabalho elevou a cirurgia de ofício manual a disciplina científica, lançando as bases da prática moderna e do ensino cirúrgico. De aprendiz barbeiro a cirurgião real, Paré encarnou o ideal atemporal do médico-cientista movido por propósito, disciplina e fé.
“Há cinco deveres da cirurgia: remover o que é supérfluo, restaurar o que foi deslocado, separar o que cresceu junto, reunir o que foi dividido e corrigir as imperfeições da natureza.” — Ambroise Paré
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