Introdução
As aderências pós-operatórias continuam sendo uma das principais complicações após cirurgias abdominais, impactando diretamente a qualidade de vida dos pacientes e os custos para o sistema de saúde. No contexto brasileiro, estima-se que até 35% das reoperações abdominais sejam causadas por aderências, contribuindo para obstruções intestinais, infertilidade, dor abdominal crônica e aumento do tempo cirúrgico em procedimentos subsequentes. A profilaxia eficaz destas formações fibrosas representa, portanto, um imperativo técnico e ético para o cirurgião do aparelho digestivo.
Desenvolvimento
A fisiopatologia das aderências envolve uma resposta inflamatória exacerbada da cavidade peritoneal à manipulação cirúrgica, à presença de corpos estranhos e à isquemia tecidual. Tais estímulos promovem a deposição de fibrina, que, na ausência de fibrinólise adequada, culmina na formação de pontes fibrosas entre órgãos e estruturas adjacentes.
As medidas preventivas devem ser iniciadas desde o planejamento operatório. O uso de técnicas cirúrgicas meticulosas é um dos pilares da prevenção. Manipular delicadamente os tecidos, evitar dissecções desnecessárias, garantir hemostasia rigorosa e eliminar corpos estranhos (como talco das luvas ou gaze fragmentada) são princípios fundamentais. Além disso, a preferência pela abordagem laparoscópica sempre que possível se justifica, já que estudos demonstram que ela reduz significativamente a formação de aderências em comparação com a cirurgia aberta.
Outra estratégia complementar é o uso de barreiras mecânicas antiaderentes bioabsorvíveis. Produtos como a membrana de ácido hialurônico/carboximetilcelulose (Seprafilm®) e a solução de icodextrina 4% (Adept®) têm evidências robustas de eficácia, sendo recomendados especialmente em procedimentos ginecológicos e digestivos de médio e grande porte. Estudos recentes também apontam novas perspectivas com o uso de polímeros zwitteriônicos, capazes de prevenir completamente aderências em modelos animais, embora ainda sem validação clínica em humanos.
Aplicação na Cirurgia Digestiva
Na prática da cirurgia do aparelho digestivo, especialmente em procedimentos como colectomias, gastrectomias, ressecções intestinais e cirurgias hepatopancreatobiliares, a prevenção de aderências é estratégica para evitar complicações precoces e tardias. A obstrução intestinal por bridas, por exemplo, representa até 20% das admissões de emergência cirúrgica abdominal nos hospitais terciários brasileiros.
A adoção da laparoscopia como via de acesso padrão, sempre que factível, deve ser incentivada como política institucional. Do mesmo modo, o emprego racional de barreiras antiaderentes é indicado especialmente em pacientes com histórico de múltiplas cirurgias abdominais, doenças inflamatórias intestinais ou em situações em que a reintervenção futura é previsível (como na cirurgia oncológica com perspectiva de reabordagem).
Pontos-Chave
- Aderências pós-operatórias ocorrem em até 93% das laparotomias, sendo a causa de 60% das obstruções intestinais por bridas.
- Técnicas cirúrgicas meticulosas são a medida preventiva mais eficaz e de menor custo.
- A laparoscopia reduz substancialmente a formação de aderências em comparação com a cirurgia aberta.
- Barreiras antiaderentes, como Seprafilm® e Adept®, têm indicação em cirurgias abdominais de maior complexidade.
- Inovações como polímeros zwitteriônicos prometem novas abordagens, mas ainda requerem validação clínica.
Conclusões Aplicadas à Prática do Cirurgião Digestivo
A prevenção das aderências pós-operatórias deve ser abordada como uma extensão da técnica cirúrgica refinada. Incorporar práticas baseadas em evidências, priorizar o uso de tecnologias minimamente invasivas e adotar dispositivos antiaderentes quando indicados são medidas que não apenas melhoram os desfechos clínicos, mas também reduzem o ônus econômico e o sofrimento dos pacientes.
A educação continuada do cirurgião digestivo é fundamental para manter-se atualizado quanto às inovações tecnológicas e diretrizes internacionais. Em tempos de medicina baseada em valor, prevenir complicações previsíveis como as aderências é um ato de excelência e responsabilidade profissional.
“Jamais devemos nos contentar em apenas operar. Devemos operar melhor, sempre.” — Alexis Carrel
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