Segurança em Foco

A Evolução da Cultura de Segurança e o Desafio da Burocratização na Cirurgia do Aparelho Digestivo

1. A Gênese do Risco na Medicina e Cirurgia

A gênese da prática cirúrgica moderna está intrinsecamente vinculada a uma audácia que, aos olhos contemporâneos, beira a temeridade. Em seus primórdios, a medicina não dispunha de comitês de ética, protocolos de conduta ou salvaguardas administrativas; o progresso era esculpido em tempo real, frequentemente à beira do leito e sob um custo humano excruciante. A introdução de tecnologias disruptivas como o éter e o clorofórmio exemplifica essa tensão dialética: embora tenham viabilizado a revolução do ato operatório, enfrentaram resistências ferrenhas sob o pretexto de serem substâncias perigosas e incontroláveis. Esse padrão de rejeição institucional repetiu-se com Ignaz Semmelweis, cuja demonstração empírica da eficácia da higiene das mãos foi ignorada por desafiar identidades profissionais e normas vigentes. Aquela era, magistralmente retratada na série The Knick, exibe uma medicina criativa e heróica, porém caótica e, por vezes, deletéria. Aprendemos, por meio de um processo histórico doloroso, que a inovação desmedida gera danos, mas reconhecemos que, naquele período de obscuridade técnica, a assunção do risco era o único vetor possível para o avanço da ciência.

2. O Surgimento da Segurança como Bússola Moral

Como resposta necessária ao caos da era heróica, a segurança emergiu como a bússola moral da medicina do século XX. A transição para a era da padronização e dos protocolos buscou transformar a arte cirúrgica em uma ciência de alta confiabilidade. O advento do Checklist Cirúrgico consolidou-se como o marco definitivo desta evolução, mitigando erros catastróficos, como intervenções em locais incorretos, e reduzindo drasticamente as complicações evitáveis. A segurança estabeleceu-se como nossa âncora ética sob o aforismo Primum non nocere. Contudo, observamos hoje que este preceito tem sido distorcido: em vez de guiar a prudência clínica, é frequentemente invocado para justificar a inação diante de riscos calculados e necessários. A medicina não deve ser a busca utópica pela anulação do risco a qualquer custo, mas sim o sopesamento rigoroso entre danos e benefícios, sempre pautado pela soberania dos valores do paciente.

3. Quando a Segurança se Torna Burocracia

Assistimos, na atualidade, a uma patologia sistêmica de ordem administrativa: a “fossilização” da segurança em estruturas burocráticas estáticas. O que deveria proteger o paciente transmutou-se em mecanismos de proteção institucional e conformidade legal. Um sintoma alarmante dessa realidade foi o caso de um residente sênior norte-americano que, a seis meses de sua graduação, jamais havia realizado uma drenagem de tórax de forma autônoma — um reflexo direto de sistemas que priorizam a ausência de intercorrências administrativas em detrimento da formação de competência técnica real. No cenário brasileiro, essa estagnação é agravada por infraestruturas hospitalares rígidas e prontuários eletrônicos (EHRs) deficientes, que impõem as seguintes consequências:

• Dreno de Intelecto: Residentes de Cirurgia do Aparelho Digestivo e de Terapia Intensiva gastam, em média, 50% de sua jornada diária em tarefas clericais e documentação redundante, sacrificando o raciocínio clínico e o treinamento em técnica cirúrgica.

• Engessamento da Pesquisa: Processos de governança para estudos de baixo risco podem levar meses ou anos para aprovação, priorizando a prevenção de riscos hipotéticos sobre o aprendizado derivado de pacientes reais.

• Desvio de Finalidade: A documentação clínica passou a servir mais ao faturamento e à auditoria do que à comunicação entre a equipe e ao cuidado direto.

4. O “Stress Test” da Inteligência Artificial (IA) na Prática Cirúrgica

A Inteligência Artificial atua hoje como um teste de estresse que revela as falhas de governança do nosso sistema de saúde. A barreira para a adoção da IA não é de ordem técnica, mas sim uma incapacidade de adaptação das instâncias decisórias. O paradoxo é flagrante: algoritmos de IA são prontamente implementados quando o objetivo é otimizar códigos de faturamento e captura de receita. No entanto, ferramentas de IA como escribas clínicos, que reduzem a carga documental, ou sistemas de suporte ao raciocínio clínico e triagem de imagens, enfrentam barreiras instransponíveis sob o pretexto da privacidade — ainda que sejam mais seguros do que os “atalhos” improvisados por cirurgiões em seus dispositivos pessoais para contornar sistemas hospitalares obsoletos. A resistência atual é uma falha de governança disfarçada de segurança do paciente.

5. Aplicação Prática na Cirurgia Digestiva

Para o cirurgião do aparelho digestivo em formação, o conceito de “Custo do Atraso” deve ser central. Estatísticas demonstram que, em média, transcorrem 14 anos para que uma evidência científica consolidada chegue efetivamente ao leito do paciente. Para um residente que inicia sua trajetória hoje, esse hiato significa que ele poderá estar na metade de sua carreira antes de dominar as inovações que já estão disponíveis agora. É imperativo compreender que a inação não é um porto seguro; ela possui consequências invisíveis, mas mensuráveis. A espera por uma segurança absoluta e estática é, em si, uma forma de dano. Na residência médica e na pós-graduação, a inovação tecnológica deve ser integrada não como um acessório, mas como um pilar da segurança do paciente e da eficiência clínica.

6. Pontos-Chave para o Residente e Pós-Graduando

1. A segurança deve ser adaptativa, não estática: Protocolos que não evoluem com a tecnologia tornam-se obstáculos ao exercício da excelência cirúrgica.

2. Inação também gera dano: O perigo invisível da espera e o atraso na adoção de novas técnicas são formas reais de prejuízo ao paciente.

3. O cirurgião como avaliador e tradutor: O cirurgião não é um usuário passivo, mas um filtro crítico que absorve incertezas para que o sistema de saúde possa aprender e evoluir com segurança.

7. Perspectivas Futuras

A segurança que não evolui torna-se, inexoravelmente, insegura. O desafio da Cirurgia Digestiva contemporânea é resgatar a coragem intelectual de nossos predecessores, temperada pelo rigor científico atual. Devemos atuar como early adopters responsáveis, integrando novas ferramentas de forma monitorada e contínua. A tradição, que outrora serviu para proteger o enfermo, não pode ser reduzida a um mecanismo que protege as instituições contra a mudança. Somente através de uma cultura de aprendizado contínuo e da superação da burocracia fóssil poderemos assegurar que a próxima geração de cirurgiões esteja plenamente capacitada para os desafios de sua era.

Como bem asseverou Lord Lister, o mestre da antissepsia: “O sucesso de uma operação depende da atenção cuidadosa a cada detalhe.” Que essa atenção aos detalhes transcenda o campo operatório e alcance a gestão crítica da tecnologia e dos sistemas que regem nossa profissão. O zelo pelo paciente exige, agora mais do que nunca, zelo pela evolução do sistema.

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The Surgeon A Cirurgia Digestiva Atual Et Fortior

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