A Origem da Cirurgia Abdominal

A História da Primeira Laparotomia de Sucesso

1.0 Um Olhar Sobre o Abismo do Passado Cirúrgico

Hoje, um cirurgião pode remover um grande tumor ovariano em um procedimento seguro, utilizando um eletrocautério para uma cirurgia sem sangue e clipes de plástico para ligar os vasos. É um feito notável, mas que se torna assombroso quando contrastado com a brutal realidade cirúrgica de 1809. Naquele mundo, o interior do abdômen era um santuário inviolável. O que aconteceu na cidade fronteiriça de Danville, Kentucky, não foi uma evolução, mas uma metamorfose. Foi, nas palavras de Shakespeare, “a sea change into something rich and strange” — uma transformação profunda e maravilhosa.

Voltemos a esse tempo. Não existia anestesia — o éter só seria usado 33 anos depois. Os princípios da antissepsia de Joseph Lister só surgiriam em 1865. Transfusões de sangue eram algo para mais de um século no futuro, e a penicilina de Alexander Fleming só seria descoberta em 1928. Qualquer tentativa de abrir a cavidade abdominal era considerada uma sentença de morte.

Foi neste cenário desolador que um cirurgião visionário, Dr. Ephraim McDowell, e uma paciente de coragem extraordinária, Jane Todd Crawford, se uniram para realizar o impossível. Juntos, eles conduziram um “experimento” que não apenas salvou uma vida, mas fundou a cirurgia abdominal. Esta é a crônica desse evento marcante — uma lição fundamental de inovação, diagnóstico e coragem para todos os estudantes e cirurgiões contemporâneos.

2.0 A Crônica de um Milagre Cirúrgico

2.1 O Cenário Cirúrgico do Século XIX: O Dogma da Peritonite Fatal

No início do século XIX, a comunidade médica, especialmente a europeia, operava sob um dogma inabalável: qualquer violação da cavidade peritoneal resultaria invariavelmente em peritonite e morte. Cirurgiões renomados, como o anatomista escocês William Hunter, consideravam a remoção de ovários uma prática incurável e perigosa. Desafiar essa crença não exigia uma evolução do pensamento, mas uma completa revolução. Apesar do medo paralisante, a ideia já havia sido aventada. John Bell, professor de McDowell e um dos cirurgiões mais famosos da Europa, havia falado sobre a possibilidade teórica de tal operação em suas aulas, embora nunca tenha ousado tentar realizá-la. O abismo entre a teoria e a prática era, até então, intransponível.

2.2 Os Protagonistas: Um Cirurgião Visionário e uma Paciente de Coragem Extraordinária

Dr. Ephraim McDowell: Nascido em 1771, McDowell era um cirurgião competente e respeitado na fronteira americana. Sua formação incluiu um aprendizado com o Dr. Alexander Humphreys e estudos na Universidade de Edimburgo, onde foi influenciado por John Bell. Ao retornar para Danville, estabeleceu uma reputação por realizar cirurgias complexas para a época, como a remoção de cálculos vesicais de 23 pacientes sem uma única fatalidade. Um desses pacientes foi um jovem chamado James K. Polk, que mais tarde se tornaria o 11º presidente dos Estados Unidos.

Jane Todd Crawford: Nascida em 1763, Jane era uma mulher de 45 anos, mãe de quatro filhos, que vivia em uma cabana de toras a 60 milhas (quase 100 km) de Danville. Por meses, ela sofreu com um inchaço abdominal persistente e enorme. Seus médicos locais, perplexos, diagnosticaram-na erroneamente como estando em uma gravidez gemelar que já havia passado do tempo. Sua coragem e fortitude seriam postas à prova de uma forma que ninguém poderia imaginar.

2.3 O Diagnóstico e a Decisão Audaciosa

Em 13 de dezembro de 1809, McDowell cavalgou até a casa de Crawford. Seu relato do encontro demonstra uma impressionante acuidade clínica. Ele escreveu:

“Ao exame, per vaginam, não encontrei nada no útero, o que me induziu à conclusão de que deveria ser um ovarium aumentado.”

Sem nenhuma tecnologia, apenas com seu conhecimento de anatomia e o exame físico, McDowell descartou a gravidez e diagnosticou corretamente um tumor ovariano gigante. O passo seguinte foi ainda mais notável. Em um dos primeiros exemplos de consentimento informado, ele explicou a Crawford sua perigosa situação e que a única chance, uma operação, seria um “experimento” nunca antes realizado com sucesso. Ele prometeu tentar se ela estivesse disposta a ir até sua casa em Danville.

A resposta de Jane Todd Crawford foi um ato de coragem monumental. Durante o rigoroso inverno do Kentucky, ela viajou as 60 milhas a cavalo, uma jornada de vários dias, equilibrando o enorme tumor sobre a sela de seu cavalo para se submeter a um procedimento que muito provavelmente a mataria.

2.4 A Operação: Um Marco na História em 25 de Dezembro de 1809

No dia de Natal de 1809, em um quarto no andar de cima da casa de McDowell, a cirurgia foi realizada. Não havia anestesia; a mesa de operação era uma mesa comum de madeira. Para se acalmar durante o procedimento de 25 minutos, Jane Todd Crawford recitava salmos e cantava hinos. A cena, conforme descrita por McDowell, desafia a imaginação moderna. Ele realizou uma incisão de 9 polegadas no lado esquerdo do abdômen, realizando a primeira laparotomia eletiva da história. Com a súbita liberação da pressão, os intestinos “correram para fora sobre a mesa”. Preenchido pelo tumor, o abdômen não podia contê-los. As alças intestinais, segundo o próprio McDowell, “permaneceram de fora por cerca de vinte minutos e, sendo dia de Natal, ficaram tão frias” que ele precisou lavá-las com água morna antes de recolocá-las. Em meio a esse caos controlado, ele passou uma ligadura forte na trompa de Falópio, incisou o tumor, removeu 15 libras de “substância gelatinosa suja” e, em seguida, o saco tumoral de 7,5 libras. Finalmente, fechou a incisão com sutura interrompida, deixando a ponta da ligadura para fora. A recuperação de Crawford foi tão milagrosa quanto a cirurgia. Cinco dias depois, McDowell a encontrou “fazendo sua cama”. Em 25 dias, ela estava saudável o suficiente para fazer a viagem de 60 milhas de volta para casa, novamente a cavalo. Jane Todd Crawford viveu por mais 33 anos, superando seu cirurgião em 12 anos.

2.5 Publicação e Reconhecimento Tardio

Com modéstia, McDowell só publicou seu feito em 1817, no Eclectic Repertory and Analytical Review, após realizar com sucesso mais duas operações semelhantes. A reação da comunidade médica europeia foi de ceticismo e desprezo. James Johnson, editor do influente London Medico-Chirurgical Review, expressou sua incredulidade com um desdém mordaz: “Credat Judoeus, non ego” (Conte isso a outra pessoa, não a mim). Anos depois, ao relutantemente aceitar o feito, sua retratação revelou o preconceito geográfico e racial que McDowell enfrentava: “…todas as mulheres operadas no Kentucky, exceto uma, eram negras, e como essas pessoas suportam cortes com quase, se não total, impunidade como cães e coelhos, nossa admiração diminui…”. O reconhecimento de McDowell como o “Pai da Cirurgia Abdominal” veio postumamente, em grande parte devido aos esforços do Dr. Samuel D. Gross.

3.0 Aplicação e Legado para a Cirurgia Digestiva

Qual a importância deste evento para nós, cirurgiões do aparelho digestivo? A resposta é simples e profunda: tudo. O feito de McDowell foi a refutação prática e definitiva do dogma de que a cavidade peritoneal era intocável. Sua coragem não criou apenas um novo procedimento; ela criou a possibilidade de toda a nossa especialidade. A cirurgia de estômago, fígado, pâncreas e intestino simplesmente não existiria sem aquele primeiro passo revolucionário. É crucial também clarificar a terminologia. O procedimento não foi uma “ovariotomia” — termo que tecnicamente significa apenas incisar o ovário. O que McDowell realizou foi uma laparotomia (a abertura da cavidade abdominal) com uma salpingo-ooforectomia (a extração do ovário e da trompa de Falópio). Usar o termo impreciso diminui a magnitude de seu feito, que não foi apenas remover um órgão, mas sim invadir e manejar com sucesso o santuário proibido do abdômen. A ousadia de McDowell ressoa em sua própria voz, vinte anos depois do evento, em uma carta de 1829:

“Portanto, parece-me uma mera bobagem sobre o perigo da inflamação peritoneal tão falada pela maioria dos cirurgiões.”

4.0 Pontos-Chave para a Prática do Cirurgião Digestivo

A história de McDowell e Crawford oferece lições atemporais para a prática médica moderna:

  • Inovação Contra o Dogma: A medicina avança quando profissionais questionam verdades estabelecidas. McDowell transcendeu o “padrão de cuidado” de sua época, confiando em seu julgamento clínico e conhecimento anatômico para fazer o que era considerado impossível.
  • A Primazia do Diagnóstico Clínico: A habilidade de McDowell em realizar um diagnóstico preciso baseado unicamente no exame físico e no raciocínio clínico é uma lição poderosa. É um lembrete contundente de que, na ausência de tecnologia, a verdadeira excelência reside no raciocínio anatômico e na sensibilidade do exame clínico — habilidades que jamais devem ser atrofiadas.
  • A Aliança Cirurgião-Paciente: O sucesso da empreitada dependeu de uma confiança mútua extraordinária. O consentimento informado de Crawford, mesmo em sua forma mais rudimentar, foi o pilar que sustentou a realização de um procedimento de altíssimo risco.
  • Coragem e Responsabilidade: McDowell demonstrou a coragem necessária para ser o primeiro, assumindo total responsabilidade pelo resultado. Ele sabia que, em caso de falha, o peso do fracasso recairia inteiramente sobre ele.

5.0 O Legado Imortal de McDowell e Crawford

A cirurgia realizada em um quarto de uma cidade fronteiriça não foi um avanço evolutivo; foi um salto revolucionário. Nasceu da visão de um homem e da coragem de uma mulher, que juntos mudaram o curso da história da medicina. Não foi o produto de uma “escola” cirúrgica ou de anos de pesquisa, mas um ato de genialidade e audácia que surgiu de novo. Com sua genialidade, Ephraim McDowell devolveu a vida a Jane Todd Crawford; ela, em troca, garantiu-lhe a imortalidade. O que eles realizaram juntos foi, de fato, o início de uma nova era para a medicina.

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