Epônimos da Anatomia Abdominal: A Linguagem Clássica da Prática Cirúrgica

Resumo Apesar dos esforços contínuos da Federative International Programme on Anatomical Terminologies (FIPAT) para padronizar a nomenclatura médica através da Terminologia Anatômica, a linguagem operatória permanece, em essência, histórica. Este artigo revisa os epônimos fundamentais da anatomia abdominal, correlacionando a definição topográfica precisa com a aplicação prática na cirurgia do aparelho digestivo, demonstrando que o domínio destes termos é imperativo para a segurança cirúrgica e a comunicação clínica eficaz.

PROF. DR. OZIMO GAMA

Introdução

A anatomia topográfica é o alicerce da cirurgia. Contudo, existe uma dicotomia persistente entre a taxonomia descritiva moderna e a tradição oral dos centros cirúrgicos. Enquanto a academia privilegia termos locativos e funcionais, a prática diária — da passagem de plantão à descrição operatória — é dominada por epônimos. Estes nomes não são meros vestígios históricos; funcionam como “atalhos cognitivos” que evocam, simultaneamente, uma localização, uma relação anatômica complexa e, frequentemente, uma manobra cirúrgica específica. Este estudo revisa os principais epônimos do abdome, dissecando sua anatomia estrutural e sua relevância crítica na cirurgia geral e digestiva.

1. Parede Abdominal e Região Inguinal

A compreensão da estratigrafia da parede abdominal é o primeiro passo para o acesso seguro à cavidade peritoneal e para o reparo eficaz dos defeitos herniários.

Estratigrafia Subcutânea e Fascial

  • Fáscia de Camper
    • Anatomia: Camada superficial, de espessura variável e consistência adiposa, do tecido subcutâneo da parede abdominal anterior.
    • Relevância Cirúrgica: A sua aproximação é frequentemente negligenciada, mas o manejo adequado do espaço morto nesta camada é vital na prevenção de seromas e infecções de sítio cirúrgico superficiais em laparotomias.
  • Fáscia de Scarpa
    • Anatomia: Camada membranosa profunda do tecido subcutâneo, contendo fibras elásticas amarelas, que se funde com a fáscia lata da coxa inferiormente e continua como Fáscia de Colles no períneo.
    • Relevância Cirúrgica: Estrutura de fixação essencial no fechamento da parede abdominal. A sutura desta camada reduz a tensão sobre a pele e melhora o resultado estético da cicatriz. Devido à sua continuidade perineal, orienta a disseminação de extravasamentos de urina (fraturas de uretra) ou infecções necrotizantes (Síndrome de Fournier).
  • Fáscia Inominada de Gallaudet
    • Anatomia: A fáscia profunda aderida intimamente à aponeurose do músculo oblíquo externo e bainha do reto.
    • Relevância Cirúrgica: Define o plano de dissecção “limpo” sobre a aponeurose durante o reparo de hérnias ou a confecção de retalhos miocutâneos.

Anatomia Inguinal e o Assoalho Pélvico

  • Ligamento de Poupart (Ligamento Inguinal)
    • Anatomia: A borda inferior espessa e recorvada da aponeurose do oblíquo externo, estendendo-se da Espinha Ilíaca Antero-Superior (EIAS) ao tubérculo púbico.
    • Relevância Cirúrgica: O marco anatômico absoluto que diferencia hérnias inguinais (acima) de femorais (abaixo) e serve como âncora inferior para reparos teciduais clássicos (técnica de Bassini) e fixação de telas (técnica de Lichtenstein).
  • Ligamento de Gimbernat (Ligamento Lacunar)
    • Anatomia: Uma extensão triangular das fibras do ligamento inguinal que se reflete posteriormente e se insere na linha pectínea.
    • Relevância Cirúrgica: Forma a borda medial do anel femoral. Em casos de hérnia femoral encarcerada, este ligamento é frequentemente a estrutura constritora que deve ser incisada (com cautela devido à presença eventual da Corona Mortis vascular) para redução do conteúdo.
  • Ligamento de Cooper (Ligamento Pectíneo)
    • Anatomia: Espessamento do periósteo e fáscia ao longo da crista pectínea (pecten do púbis), posterior ao ligamento inguinal.
    • Relevância Cirúrgica: Estrutura de ancoragem robusta utilizada na técnica de McVay e ponto de fixação crítico para telas em reparos laparoscópicos (TAPP/TEP), prevenindo a recidiva direta.
  • Triângulo de Hesselbach
    • Anatomia: Delimitado inferiormente pelo ligamento inguinal, lateralmente pelos vasos epigástricos inferiores e medialmente pela borda lateral do músculo reto abdominal.
    • Relevância Cirúrgica: Local anatômico das hérnias inguinais diretas, resultantes da fraqueza da fáscia transversal, sem passagem pelo anel inguinal profundo.
  • Orifício Miopectíneo de Fruchaud
    • Anatomia: Área de fraqueza da parede abdominal inferior que engloba tanto a região inguinal quanto a femoral, delimitada pelo músculo oblíquo interno (superior), reto abdominal (medial), iliopsoas (lateral) e osso púbico (inferior).
    • Relevância Cirúrgica: Conceito fundamental para a cirurgia moderna de hérnia. Estabelece que o tratamento definitivo deve cobrir toda esta área com material protético (tela) para prevenir todos os tipos de hérnias da virilha, princípio base das abordagens pré-peritoneais (Stoppa, TEP, TAPP).

2. Peritônio e Topografia Gastrointestinal

A semiologia abdominal e o acesso cirúrgico baseiam-se em projeções de superfície e recessos cavitários.

  • Linha de Monro-Richter e Ponto de McBurney
    • Anatomia: Linha traçada da EIAS à cicatriz umbilical. O Ponto de McBurney localiza-se na união do terço lateral com os dois terços mediais desta linha.
    • Relevância Cirúrgica: Projeção clássica da base do apêndice cecal. Guia a incisão oblíqua (McBurney) para apendicectomias abertas e é o ponto de máxima dor à descompressão na apendicite aguda.
  • Ponto de Lanz
    • Anatomia: Ponto na junção do terço direito com o terço médio da linha bi-ilíaca.
    • Relevância Cirúrgica: Representa a projeção variável do ápice de um apêndice pélvico longo, importante no diagnóstico diferencial de patologias anexiais em mulheres.
  • Ponto de Murphy
    • Anatomia: Ponto situado abaixo do rebordo costal direito, na linha hemiclavicular (borda lateral do reto abdominal).
    • Relevância Cirúrgica: Local de palpação do fundo da vesícula biliar. A interrupção súbita da inspiração à palpação profunda (Sinal de Murphy) é altamente sugestiva de colecistite aguda.
  • Espaços Peritoneais (Morison, Douglas, Proust, Winslow)
    • Bolsa de Morison (Recesso Hepatorrenal): Espaço virtual entre o fígado e o rim direito. É o local mais dependente do abdome superior em decúbito dorsal; local primário de acúmulo de líquido livre (sangue/pus) detectável pelo FAST em trauma.
    • Fundo de Saco de Douglas (Retouterino): Ponto mais declive da cavidade peritoneal em mulheres. Local de acúmulo de líquido e de implantes metastáticos palpáveis ao toque retal/vaginal (Prateleira de Blumer).
    • Espaço de Proust (Retovesical): Correspondente masculino ao de Douglas, entre o reto e a bexiga/próstata. Relevante na dissecção oncológica do reto baixo.
    • Forame de Winslow (Forame Epiploico): Comunicação entre a grande cavidade e a retrocavidade dos epíplons (bolsa omental). Clinicamente, é a via de acesso para a Manobra de Pringle (clampeamento do pedículo hepático para controle de hemorragia) e local potencial para hérnias internas.

3. Trato Digestório e Glândulas Anexas

Nesta região, os epônimos descrevem marcos críticos para ressecções oncológicas e reconstruções.

  • Ângulo de His
    • Anatomia: Ângulo agudo formado entre o esôfago abdominal e o fundo gástrico.
    • Relevância Cirúrgica: Componente anatômico crucial do mecanismo valvular anti-refluxo. A restauração ou acentuação deste ângulo é o objetivo central das fundoplicaturas (Nissen, Toupet) no tratamento da DRGE.
  • Espaço de Traube e Triângulo de Labbé
    • Anatomia: Áreas de projeção gástrica na parede toracoabdominal.
    • Relevância Cirúrgica: O Espaço de Traube (timpânico à percussão) torna-se maciço em casos de esplenomegalia ou derrame pleural. O Triângulo de Labbé é a área de contato do estômago com a parede abdominal anterior, local seguro para gastrostomias percutâneas ou cirúrgicas.
  • Ligamento de Treitz
    • Anatomia: Músculo suspensor do duodeno, marcando a transição duodeno-jejunal (ângulo de Treitz).
    • Relevância Cirúrgica: Divisor anatômico e clínico entre hemorragia digestiva alta e baixa. Marco fundamental para a mobilização do intestino delgado e identificação da primeira alça jejunal em reconstruções (ex: Y de Roux).
  • Vias Biliares: Calot, Heister, Vater, Oddi
    • Triângulo de Calot (Cisto-Hepático): Delimitado pelo ducto cístico, ducto hepático comum e borda inferior do fígado. Contém a artéria cística e, frequentemente, o linfonodo de Mascagni. Sua dissecção meticulosa para obter a “Visão Crítica de Segurança” (Critical View of Safety) é mandatória para prevenir lesões iatrogênicas da via biliar principal na colecistectomia.
    • Válvulas de Heister: Pregas espirais na mucosa do ducto cístico que podem dificultar a cateterização durante a colangiografia intraoperatória.
    • Ampola de Vater e Esfíncter de Oddi: A confluência biliopancreática e seu aparelho esfincteriano. Alvo terapêutico nas papilotomias endoscópicas (CPRE) para tratamento de coledocolitíase ou pancreatite biliar.
  • Ductos Pancreáticos (Wirsung e Santorini)
    • Anatomia: Wirsung é o ducto principal; Santorini é o acessório.
    • Relevância Cirúrgica: A variante Pancreas Divisum (falha na fusão dos ductos) drena a maior parte do pâncreas pelo ducto menor (Santorini), sendo causa de pancreatites recorrentes inexplicadas.
  • Marcos Hepáticos (Glisson e Cantlie)
    • Cápsula de Glisson: Bainha de tecido conjuntivo que envolve o fígado e a tríade portal intra-hepática. Importante na manobra de Pringle e nas hepatectomias.
    • Linha de Cantlie: Linha imaginária que divide o fígado funcionalmente em lobos direito e esquerdo, estendendo-se do leito da vesícula biliar à veia cava inferior. Base para hepatectomias anatômicas maiores.

4. Vascularização Abdominal e Colateralização

O conhecimento das arcadas vasculares é determinante para a viabilidade de anastomoses intestinais.

  • Tripus Halleri (Tronco Celíaco)
    • Anatomia: Trifurcação da aorta abdominal em artéria gástrica esquerda, esplênica e hepática comum.
    • Relevância Cirúrgica: O controle vascular proximal em cirurgias de trauma, gastrectomias e pancreatectomias. Variações anatômicas são frequentes e devem ser antecipadas em planejamentos pré-operatórios.
  • Arcada de Riolan e Artéria Marginal de Drummond
    • Anatomia: Sistemas de anastomose entre a artéria cólica média (ramo da mesentérica superior) e a cólica esquerda (ramo da mesentérica inferior).
    • Relevância Cirúrgica: Garantem a irrigação do cólon, especialmente na flexura esplênica (ponto crítico de Griffiths). A preservação ou a integridade funcional destas arcadas é vital para evitar isquemia do coto colônico em retossigmoidectomias e cirurgias de aneurisma de aorta.
  • Veias de Sappey e Retzius
    • Anatomia: Veias acessórias do sistema porta. As de Sappey correm no ligamento falciforme; as de Retzius são anastomoses retroperitoneais.
    • Relevância Cirúrgica: Em pacientes com hipertensão portal, estas veias dilatam-se dramaticamente. As veias de Sappey podem causar hemorragia maciça na incisão supraumbilical. A dissecção do retroperitônio em cirróticos pode encontrar o “sangramento em lençol” das veias de Retzius, de difícil controle.

5. Retroperitônio e Rins

A anatomia dos planos fasciais renais é a chave para a cirurgia oncológica retroperitoneal radical.

  • Fáscia de Gerota (e suas lâminas Toldt e Zuckerkandl)
    • Anatomia: A fáscia renal envolve o rim e a adrenal em um compartimento fechado. A lâmina anterior é frequentemente associada à Fáscia de Toldt (no contexto da fusão com o mesocólon), e a posterior à Fáscia de Zuckerkandl.
    • Relevância Cirúrgica: A “Fáscia de Toldt” (ou linha de Toldt) representa o plano de clivagem avascular embrionário entre o mesocólon e o retroperitônio. A dissecção neste plano permite a mobilização incruenta do cólon direito e esquerdo, essencial em colectomias oncológicas laparoscópicas e abertas. A violação da Fáscia de Gerota propriamente dita é indicativa de invasão tumoral renal ou necessária para nefrectomias radicais.

Conclusão

O domínio dos epônimos da anatomia abdominal transcende o exercício de erudição histórica; constitui uma ferramenta de precisão técnica. Falar em “Triângulo de Calot” ou “Fáscia de Toldt” evoca, instantaneamente, uma estratégia cirúrgica e um plano de segurança. Para o cirurgião do aparelho digestivo, a fluência nesta linguagem clássica é tão fundamental quanto a destreza manual, permitindo a integração segura entre o conhecimento anatômico estático e a dinâmica do ato operatório.

Referência-Base: ten Donkelaar HJ, Quartu M, Kachlík D. An Illustrated Guide to Anatomical Eponyms. Springer, 2025.

Índice Biográfico dos Epônimos Citados

Abaixo listam-se os dados biográficos dos anatomistas e cirurgiões cujos epônimos foram discutidos neste artigo.

  • Blumer, George (Reino Unido/EUA, 1858–1940)
  • Calot, Jean-François (França, 1861–1944)
  • Camper, Pieter (Holanda, 1722–1789)
  • Cantlie, James (Escócia, 1851–1926)
  • Colles, Abraham (Irlanda, 1773–1843)
  • Cooper, Astley Paston (Reino Unido, 1768–1841)
  • Douglas, James (Escócia, 1675–1742)
  • Drummond, Hamilton (Reino Unido, 1882–1925)
  • Fruchaud, Henri (França, 1894–1960)
  • Gallaudet, Bern Budd (EUA, 1860–1934)
  • Gerota, Dimitrie (Romênia, 1867–1939)
  • Gimbernat, Antoni de (Espanha, 1734–1816)
  • Glisson, Francis (Reino Unido, 1597–1677)
  • Griffiths, Joseph (País de Gales, 1863–1945)
  • Haller, Albrecht von (Suíça, 1708–1777)
  • Heister, Lorenz (Alemanha, 1683–1758)
  • Hesselbach, Franz Kaspar (Alemanha, 1759–1816)
  • His, Wilhelm Jr. (Suíça, 1863–1934)
  • Labbé, Léon (França, 1832–1916)
  • Lanz, Otto (Suíça, 1865–1935)
  • Mascagni, Paolo (Itália, 1755–1815)
  • McBurney, Charles (EUA, 1845–1913)
  • Monro, Alexander III (Escócia, 1773–1859)
  • Morison, James Rutherford (Reino Unido, 1853–1939)
  • Murphy, John Benjamin (EUA, 1857–1916)
  • Oddi, Ruggero (Itália, 1864–1913)
  • Poupart, François (França, 1661–1709)
  • Pringle, James Hogarth (Escócia, 1863–1941)
  • Proust, Robert (França, 1873–1935)
  • Retzius, Anders (Suécia, 1796–1860)
  • Richter, August Gottlieb (Alemanha, 1742–1812)
  • Riolan, Jean (o Jovem) (França, 1580–1657)
  • Santorini, Giovanni Domenico (Itália, 1681–1737)
  • Sappey, Marie Philibert Constant (França, 1810–1896)
  • Scarpa, Antonio (Itália, 1752–1832)
  • Toldt, Carl (Áustria, 1840–1920)
  • Traube, Ludwig (Alemanha, 1818–1876)
  • Treitz, Václav (República Tcheca/Áustria, 1819–1872)
  • Vater, Abraham (Alemanha, 1684–1751)
  • Winslow, Jacob Benignus (Dinamarca/França, 1669–1760)
  • Wirsung, Johann Georg (Alemanha, 1589–1643)
  • Zuckerkandl, Emil (Áustria, 1849–1910)

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