Introdução
A cirurgia é uma das áreas da medicina que mais muda ao longo do tempo. Técnicas, tecnologias, diretrizes e condutas são revisadas continuamente. Ninguém termina a residência “pronto para tudo”. O que diferencia o cirurgião que se mantém competente e atualizado ao longo da carreira não é apenas o que aprendeu na formação inicial, mas a capacidade de continuar aprendendo de forma ativa, intencional e estruturada.
Esse é o núcleo do conceito de Lifelong Learning: o compromisso de adquirir, revisar e integrar novos conhecimentos desde o primeiro dia de faculdade até o último dia de atividade profissional. E, na prática, o que sustenta isso é um conjunto de habilidades chamado aprendizagem autorregulada.
O problema: bons alunos, maus aprendizes
Grande parte dos estudantes que chegam à residência é formada por “altos desempenhos acadêmicos”. Mas muitos:
- atribuem sucesso e fracasso quase sempre ao professor, ao serviço ou ao tipo de prova;
- não conseguem descrever com clareza como estudam;
- acreditam que aprender é algo que “acontece com eles”, não algo que podem controlar.
Esse modelo funciona em um ambiente escolar tradicional, com provas previsíveis e conteúdo delimitado. Em cirurgia, não. No centro cirúrgico, na UTI ou no pronto-socorro, o cirurgião depende de outra coisa: da capacidade de identificar o que não sabe, de estudar com foco e de ajustar a própria prática a partir de resultados reais.
É aqui que entra a aprendizagem autorregulada.
O que é aprendizagem autorregulada?
Aprendizagem autorregulada é o conjunto de hábitos, estratégias e atitudes que fazem o aluno assumir o controle do próprio processo de aprendizagem.
Um aprendiz autorregulado:
- pensa sobre como aprende (metacognição);
- acredita que é capaz de melhorar com esforço e estratégia (autoeficácia realista);
- organiza o ambiente, o tempo e os recursos para aprender melhor (comportamento ativo).
Na prática, isso aparece em três dimensões:
1. Metacognitiva
- Define objetivos de aprendizado (“quero entender critérios de indicação de neoadjuvância no pâncreas”, “quero melhorar decisão em vesícula difícil”).
- Planeja como chegar lá (o que ler, que casos observar, que vídeos rever).
- Monitora se está, de fato, avançando.
- Se autoavalia com honestidade ao final.
2. Motivacional
- Liga esforço a desempenho.
- Não se vê como “bom” ou “ruim”, mas como alguém em processo de desenvolvimento.
- Usa erros como feedback, não como sentença.
3. Comportamental
- Seleciona ativamente casos, plantões e oportunidades que trazem aprendizado.
- Busca ajuda, feedback e coaching quando necessário.
- Usa estratégias de estudo estruturadas, não apenas leitura passiva.
O ciclo da aprendizagem autorregulada
Você pode enxergar esse processo como um ciclo contínuo:
- Planejamento (forethought)
- O que quero aprender?
- Por que isso é importante agora?
- Quanto tempo vou dedicar? Com que materiais?
- Execução (performance)
- Implementar o plano (leitura, vídeo, simulação, prática supervisionada).
- Monitorar em tempo real: estou entendendo? estou apenas decorando? estou aplicando?
- Reflexão (self-reflection)
- O que funcionou? O que não funcionou?
- O problema foi falta de esforço, estratégia inadequada, falta de recurso ou algo fora do meu controle?
- O que vou manter, o que vou mudar no próximo ciclo?
Quem atribui tudo a “azar”, “caso difícil”, “erro do serviço” sai mais fraco do caso.
Quem atribui a fatores ajustáveis (estratégia, preparação, decisão) sai mais forte, mesmo depois de um erro.
Ferramentas práticas para residentes e cirurgiões
1. Autoavaliação de como você aprende
Não é apenas “sou bom ou ruim”, mas:
- eu planejo o que estudar ou vou “apagando incêndio”?
- eu mudo de estratégia quando não entendo um tema?
- eu reviso os casos difíceis depois do plantão?
- eu procuro ativamente feedback objetivo sobre minha performance?
Transformar isso em rotina escrita (um caderno, um app, uma planilha) ajuda a tirar a aprendizagem do improviso e colocá-la em modo profissional.
2. Coaching cirúrgico
Coaching não é “mais uma aula”; é uma conversa estruturada para:
- definir objetivos de melhoria claros (ex.: decisão de conversão; planejamento de colecistectomia difícil; comunicação com a equipe);
- identificar pontos cegos (o que você não está vendo sobre a própria prática);
- desenhar um plano concreto de treinamento e estudo.
Ferramentas de vídeo-coaching (assistir a uma operação sua com um colega experiente e revisar decisões, tempos e manobras) têm efeito duplo: refinam a técnica e amplificam a sua metacognição.
3. Leitura inteligente: saindo do “sublinhar tudo”
Um exemplo prático é a estratégia SQ3R para capítulos e diretrizes:
- Survey (percurso) – passar rapidamente pelos subtítulos, tabelas, figuras.
- Question (perguntas) – transformar subtítulos em perguntas (“quando indicar intervalo apendicectomia?”, “como manejar abscesso apendicular?”).
- Read (leitura) – ler com foco em responder suas próprias perguntas.
- Recall (recordar) – fechar o texto e anotar o que lembra de cabeça.
- Review (revisar) – conferir no texto e corrigir lacunas.
É mais trabalhoso do que reler passivamente, mas a retenção é muito maior — e é isso que interessa na prática cirúrgica.
Aplicando isso na formação cirúrgica
Na rotina de um serviço de cirurgia, aprendizagem autorregulada se traduz em ações muito concretas:
- Antes do plantão: definir 1–2 objetivos de aprendizado (por exemplo, “revisar escore de Alvarado e conduta em apendicite complicada”).
- Durante o plantão: escolher conscientemente 1–2 casos para estudar em profundidade depois.
- Após a cirurgia: registrar rapidamente:
- o que foi bem,
- o que não foi,
- o que você precisa estudar para a próxima situação semelhante.
No nível do serviço, vale estimular:
- discussão de M&M com foco em análise de processo, não apenas em “culpa”;
- preceptores que verbalizam seu raciocínio e seus próprios erros;
- metas claras por ano de residência (o que se espera que o R1, R2, R3 saiba de fato).
Pontos-chave para o cirurgião que quer ser lifelong learner
- Assuma o comando do próprio aprendizado – ninguém fará isso por você.
- Planeje o estudo como planeja uma cirurgia – com objetivo, estratégia e checagem.
- Use erro e desconforto como combustível, não como fonte de paralisia.
- Busque feedback específico, não elogios genéricos.
- Padronize suas estratégias de leitura e revisão, fuja do improviso.
Conclusão
Formar um cirurgião tecnicamente competente é obrigatório.
Formar um cirurgião capaz de continuar aprendendo, se adaptando e se avaliando ao longo da vida é o verdadeiro diferencial.
Lifelong learning não é um slogan bonito de documento institucional.
É uma competência prática, treinável, que começa na residência, mas precisa acompanhar cada decisão, cada leitura, cada caso difícil.
Quanto mais cedo você organizar o próprio processo de aprender, mais preparado estará para os desafios que ainda nem existem hoje – mas que certamente farão parte da cirurgia de amanhã.
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