QUANDO INDICAR A RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA NAS LESÕES DAS VIAS BILIARES

1. Introdução

Lesões da via biliar (LVB) – sobretudo pós-colecistectomia, cirurgias hepáticas e transplante – são causas relevantes de morbidade. O manejo moderno é obrigatoriamente multidisciplinar, envolvendo cirurgia, endoscopia e radiologia intervencionista (RI).

A pergunta prática do cirurgião é:
“Em que momento eu devo chamar a radiologia intervencionista?”

A seguir, um guia objetivo, organizado por cenários clínicos.


2. Papel da Radiologia Intervencionista nas LVB

De forma geral, a RI é indicada para:

  1. Drenar: coleções biliares ou abscessos (biloma, coleções perihepáticas).
  2. Desobstruir: drenagem biliar percutânea (PTBD) em obstrução ou estenose.
  3. Modelar/Tratar estenoses: dilatação com balão e/ou stent em estenoses benignas ou neoplásicas.
  4. Tratar complicações vasculares associadas: pseudoaneurisma de artéria hepática, hemobilia, sangramento.
  5. Criar acesso para procedimentos combinados (rendezvous com endoscopia).

RI raramente é “primeira linha isolada”, mas é frequentemente essencial como ponte ou complemento de endoscopia/cirurgia.


3. Situações agudas: quando indicar RI?

3.1. Biloma e coleções biliares pós-operatórias

Indicar drenagem percutânea guiada por US/TC quando:

  • Coleção sintomática (dor, febre, instabilidade).
  • Coleção ≥ 3–5 cm ou progressiva em exames seriados.
  • Sinais de sepse ou disfunção orgânica.
  • Fístula biliar externa com grande débito associada a coleção interna.

Nesses casos, a drenagem percutânea:

  • Controla sepse rapidamente.
  • Permite análise do líquido (bile x pus).
  • Facilita avaliação posterior por CPRE/PTBD.

3.2. Fístula biliar com anatomia difícil ou falha da CPRE

A CPRE é primeira linha para a maioria das fístulas.
A RI entra quando:

  • CPRE falhou (papila inacessível, canulação impossível).
  • Anatomia alterada (gastrectomia, bypass gástrico em Y-de-Roux, anastomose biliodigestiva alta).
  • Fístula alta (hepático comum/proximal) com difícil acesso endoscópico.

Nesses casos, indica-se drenagem biliar percutânea trans-hepática (PTBD):

  • Dreno interno–externo ou externo, desviando o fluxo e reduzindo pressão intraductal.
  • Frequentemente associada à drenagem de coleções.

3.3. Hemobilia e pseudoaneurisma de artéria hepática

Lesões combinadas artério-biliares (p. ex. pós-clipagem, lesão térmica) podem cursar com:

  • Hemobilia (TRIÁDE: dor abdominal, icterícia, hematêmese/melena).
  • Sangramento intra-abdominal.

Indicação imediata de RI:

  • Angiografia diagnóstica + embolização seletiva da artéria lesada.
  • Evita reoperação em pedículo hepático inflamado e de alto risco.

Cirurgião deve suspeitar e acionar RI em:

  • Sangramento digestivo tardio em paciente com LVB.
  • Queda de Hb sem foco óbvio + drenagem biliar sanguinolenta.

4. Situações tardias: estenoses e reconstruções

4.1. Estenoses benignas pós-cirúrgicas (hepáticojejunostomia / LVB reparada)

A RI é especialmente útil em pacientes com anatomia não acessível por CPRE:

  • Hepáticojejunostomia em Y-de-Roux.
  • Reconstruções biliares altas.

Indicações típicas:

  • Icterícia colestática / colangite tardia.
  • Estenose diagnosticada em colangiorressonância ou PTC.

Técnicas:

  • Acesso percutâneo ao sistema biliar.
  • Dilatação com balão da estenose.
  • Posicionamento de cateteres de calibração ou stents.
  • Sessões seriadas ao longo de meses.

Em estritos pós-hepáticojejunostomia, a combinação RI + cirurgia é muitas vezes a melhor estratégia (tratamento híbrido em casos recidivantes).


4.2. Obstrução biliar maligna (colangiocarcinoma, metástases hiliares, pâncreas)

Embora aqui não haja “lesão iatrogênica”, na prática HPB o raciocínio é o mesmo:

Indicar PTBD quando:

  • ERCP falhou ou não é possível.
  • Obstrução hilar complexa (Bismuth III/IV).
  • Necessidade de drenagem seletiva de segmentos específicos antes de grande hepatectomia.

É uma área clássica da RI, mas o cirurgião deve lembrar que lesão biliar complexa iatrogênica com estenose alta se comporta de forma semelhante.


5. Lesões de via biliar complexas: como integrar cirurgia, endoscopia e RI?

5.1. Lesão parcial do ducto biliar comum com fístula (Strasberg D)

  • Primeira linha: CPRE + stent.
  • Se CPRE falha → PTBD + drenagem de coleções por RI.
  • Reconstrução cirúrgica planejada se não houver fechamento após suporte combinado.

5.2. Secção completa do ducto com perda de segmento (Strasberg E)

  • RI tem função adjuvante, não curativa.
  • Indicações:
    • Drenagem de biloma/coleções.
    • PTBD para controle de icterícia e sepse.
  • Objetivo: estabilizar o paciente e planejar hepáticojejunostomia definitiva em centro de referência.

5.3. Fístulas de pequeno ducto (Luschka, coto cístico) com biloma

  • Drenagem percutânea se coleção significativa.
  • CPRE para reduzir pressão e favorecer cicatrização.
  • RI é especialmente útil se o paciente estiver séptico ou longe de centro endoscópico.

6. Critérios práticos para o cirurgião saber “quando chamar a RI”

Em linguagem direta:

Chame Radiologia Intervencionista quando houver:

  1. Coleção intra-abdominal (biloma/abscesso) que:
    • seja volumosa, sintomática ou séptica;
    • não possa ser drenada cirurgicamente com baixo risco.
  2. Falha ou impossibilidade de CPRE em:
    • fístulas biliares;
    • obstrução/estenose biliar;
    • anatomia alterada (Y-de-Roux, gastrectomia).
  3. Obstrução ou estenose alta (hilar, hepático comum proximal) onde:
    • a drenagem seletiva de segmentos é desejada;
    • o acesso endoscópico é tecnicamente desfavorável.
  4. Suspeita de complicação vascular associada à LVB:
    • hemobilia, pseudoaneurisma de artéria hepática, sangramento sem foco claro.
  5. Paciente de alto risco cirúrgico, em que:
    • a drenagem percutânea (biloma ou biliar) pode estabilizar o quadro até uma reconstrução eletiva.

7. Conclusão

A radiologia intervencionista é hoje pilar central no manejo das lesões de via biliar, especialmente:

  • como ponte segura entre o evento agudo e a reconstrução definitiva;
  • como alternativa em anatomias complexas ou inacessíveis à endoscopia;
  • como ferramenta essencial no tratamento de complicações vasculares associadas.

Para o cirurgião HPB e digestivo, o ponto-chave não é “se” deve envolver a RI, mas em que momento:

Quanto mais precoce a integração cirurgião–endoscopista–radiologista, menor a chance de reoperações desnecessárias, falhas terapêuticas e perda definitiva da via biliar.


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