COMPARAÇÃO ENTRE AS TÉCNICAS DE CORREÇÃO DA LESÃO INADVERTIDA DA VIA BILIAR: RAFIA PRIMÁRIA, COLEDOCODUODENOSTOMIA E HEPATICOJEJUNOSTOMIA

1. Introdução

A lesão inadvertida da via biliar (LVB) é a complicação mais grave da colecistectomia. A escolha da técnica reconstrutiva influencia diretamente:

  • morbidade imediata,
  • risco de estenose tardia,
  • necessidade de reoperações,
  • qualidade de vida do paciente.

As três técnicas clássicas de reparo são: rafia primária, coledocoduodenostomia (CDD) e hepaticojejunostomia (HJ). Cada uma tem indicações específicas, benefícios, riscos e performance diferente no longo prazo.


2. RAFIA PRIMÁRIA

1. Conceito
Sutura primária do ducto biliar lesado, podendo ou não incluir T-tube (Kehr).

2. Indicações Reais (muito restritas)

  • Lesões pequenas (<3 mm).
  • Lesões laterais (tipo Strasberg D).
  • Lesões reconhecidas imediatamente, antes de isquemia ductal.
  • Sem perda de ducto.
  • Paciente estável e equipe experiente em HPB.

3. Vantagens

  • Técnica simples, rápida.
  • Preserva a anatomia original.
  • Não exige anastomose complexa.

4. Desvantagens / Problemas Clássicos

  • Alto risco de estenose tardia (20–40%).
  • Risco de falha se há trauma térmico ou perda segmentar.
  • Depende de tecido viável, o que raramente ocorre após clipagem ou eletrocoagulação.
  • Necessita drenagem adequada (Kehr), aumento de morbidade.

5. Resultados na Literatura

  • Bons resultados em lesões muito precoces e laterais.
  • Em perdas ductais ou transecções completas, a falha é a regra.
    → Por isso, seu uso caiu drasticamente e é considerado excepcional.

3. COLEDOCODUODENOSTOMIA (CDD)

1. Conceito
Anastomose término-lateral entre ducto biliar comum e duodeno.

2. Indicações Clássicas

  • Estenoses baixas do colédoco (tipos B ou C).
  • Lesões distais de fácil acesso.
  • Situações especiais: idade avançada, comorbidades, impossibilidade técnica de HJ, cirurgias prévias complexas.

3. Vantagens

  • Técnica relativamente simples.
  • Tempo cirúrgico menor que HJ.
  • Acesso endoscópico pós-operatório facilitado.

4. Desvantagens

  • Maior risco de refluxo enterobiliar.
  • Colangite recorrente (10–25%).
  • Maior incidência de estenose em comparação à HJ a longo prazo.
  • Evitada em lesões altas (porta hepatis).

5. Resultados

  • Boa taxa de permeabilidade inicial.
  • Menor durabilidade em pacientes jovens.
  • Taxa de reoperação superior à HJ em seguimento >5 anos.

Técnica válida em casos selecionados, mas não é padrão-ouro.


4. HEPATICOJEJUNOSTOMIA (HJ) – PADRÃO-OURO

1. Conceito
Anastomose término-lateral do ducto hepático (ou confluência) com alça jejunal em Roux-en-Y.

2. Indicações

  • Transecções completas (Strasberg E1–E5).
  • Lesões proximais ou com perda de ducto.
  • Lesões tardias diagnosticadas em estenose.
  • Reconstrução definitiva após falha de outros métodos.
  • Lesão térmica ou isquemia ductal.

3. Vantagens

  • Melhor durabilidade entre as técnicas.
  • Menor risco de estenose tardia (5–15%).
  • Melhor vascularização do ducto.
  • Evita refluxo duodenal.

4. Desvantagens

  • Cirurgia complexa, exige centro especializado.
  • Risco de fístula biliar inicial.
  • Acesso endoscópico pós-operatório difícil.

5. Resultados

  • Padrão-ouro mundial em lesões significativas.
  • Sucesso >85–90% em centros de referência.
  • Menor risco de reoperação tardia.

É a técnica mais segura e duradoura para a maioria das lesões importantes.


5. TABELA COMPARATIVA

TécnicaIndicaçãoVantagensDesvantagensÊxito a longo prazo
Rafia primáriaLesões laterais pequenas, precocesPreserva anatomiaAlta estenose60–80%
CDDLesões distais, baixa lesãoTécnica simples, acesso endoscópico fácilRefluxo, colangite, mais estenose65–85%
HJ (Roux-en-Y)Transecções, perdas ductais, lesões proximaisMelhor durabilidade e segurançaCirurgia longa e complexa85–95%

6. Avaliação crítica da literatura

  1. Timing importa mais que técnica
    – Reconstrução precoce (<72h) tem melhores resultados se feita em centro especializado.
    – Reconstruções tardias (6–12 semanas) podem reduzir edema e inflamação, facilitando HJ.
  2. Presença de isquemia do ducto
    – Torna a rafia primária praticamente contraindicada.
    – Favorece HJ como opção definitiva.
  3. Perícia cirúrgica
    – Estudos multicêntricos mostram falha recorrente quando cirurgiões não HPB tentam reparo primário.
  4. ODM (outcomes dependem do centro)
    – HJ feita por especialistas tem estenose <10%.
    – HJ feita em hospital não especializado chega a 30–40% de falha.

7. Conclusões práticas

1. RAFIA PRIMÁRIA

Reservada apenas para lesões pequenas, laterais e reconhecidas imediatamente. Deve ser exceção.

2. COLEDOCODUODENOSTOMIA

Útil em lesões baixas e pacientes idosos ou debilitados. Boa opção quando HJ é desproporcional ao risco.

3. HEPATICOJEJUNOSTOMIA – Padrão-ouro

Melhor técnica na imensa maioria das lesões graves. Deve ser realizada em centros de referência HPB.

Regra de ouro:

Transecção ductal = HJ em centro especializado.

Deixe aqui seu comentário, dúvida e/ou sugestão