- Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
- Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva
1. Introdução
A lesão inadvertida da via biliar (LVB) é a complicação com maior impacto clínico, emocional e jurídico da colecistectomia. Em muitos países, é uma das principais causas de processos por erro médico em cirurgia geral. Do ponto de vista médico-legal, o ponto central não é a existência da lesão em si, mas a forma como o cirurgião:
- Indicou a cirurgia;
- Conduziu o procedimento (técnica, CVS, bailouts);
- Reconheceu e tratou a lesão;
- Documentou e comunicou o evento ao paciente e à família.
Este texto aborda, em linguagem direta, os principais aspectos médico-legais que o cirurgião geral | cirurgião do aparelho digestivo precisa dominar frente a uma suspeita de lesão iatrogênica da via biliar principal.

2. Lesão de via biliar ≠ erro médico automático
Juridicamente, lesão de via biliar é, em princípio, um evento de risco inerente ao procedimento, sobretudo na colecistectomia laparoscópica, reconhecido em diretrizes nacionais e internacionais.
Em termos de responsabilidade profissional, o que será avaliado é se houve:
- Indicação adequada da cirurgia;
- Técnica compatível com o padrão atual (CVS, uso de bailouts, conversão quando necessário);
- Diligência no reconhecimento precoce da lesão;
- Conduta correta após o dano (referência, reconstrução, suporte);
- Transparência na comunicação.
Ou seja: não é a complicação que gera responsabilidade, e sim a condução inadequada antes, durante ou depois do evento.
3. Consentimento informado
Do ponto de vista pericial, o consentimento é peça-chave:
- A colecistectomia deve ser apresentada como procedimento com:
- Risco de sangramento, infecção, fístula biliar, lesão de via biliar e necessidade de reoperação.
- O termo deve ser:
- Claro, objetivo, datado, assinado pelo paciente (ou responsável) e pela equipe.
- Ideal:
- Anotação no prontuário reforçando que os riscos foram explicados verbalmente.
Em muitos litígios, a ausência de menção à possibilidade de lesão de via biliar no consentimento é usada como argumento de falha na informação, mesmo quando a técnica foi correta.
4. Padrão técnico esperado (CVS, bailouts e conversão)
Peritos costumam avaliar:
- Se houve tentativa documentada de obter o Critical View of Safety;
- Se o cirurgião reconheceu a “vesícula difícil” e utilizou manobras de bailout (subtotal, fundo–primeiro, conversão, abandono);
- Se a insistência em dissecar um triângulo de Calot obliterado foi temerária.
Alguns pontos práticos com peso médico-legal:
- Não obter CVS e mesmo assim clipar e seccionar estruturas é quase sempre visto como conduta imprudente.
- Não converter ou não chamar ajuda em cirurgias claramente difíceis pode ser interpretado como negligência.
- O uso de colangiografia intraoperatória em caso de dúvida anatômica é bem visto pericialmente, mesmo que não obrigatório.
5. Reconhecimento e manejo da lesão intraoperatória
Do ponto de vista jurídico, lesão reconhecida e tratada intraoperatória gera cenário muito mais favorável ao cirurgião do que lesão ignorada e diagnosticada tardiamente com peritonite biliar ou sepse.
Boas práticas com impacto médico-legal:
- Se houver suspeita de lesão maior:
- Registrar no ato operatório que houve dificuldade anatômica e suspeita de dano.
- Se a equipe não tiver expertise em reconstrução, não improvisar; encaminhar para centro de referência.
- Drenos adequados e exames de imagem precoces (TC, colangioRM, CPRE) em pós-operatório duvidoso demonstram diligência.
A omissão em investigar icterícia, febre ou saída de bile por dreno no pós-operatório é frequentemente qualificada como negligência em perícias.
6. Documentação operatória
O relatório cirúrgico é uma das peças centrais em processos médico-legais. Deve conter:
- Indicação da cirurgia (cólica biliar, colecistite aguda, etc.);
- Achados intraoperatórios (inflamação, fibrose, “vesícula difícil”);
- Descrição da técnica:
- Tentativa de obter CVS;
- Uso de colangiografia intraoperatória, quando feita;
- Manobras de bailout, conversão, subtotal, etc.;
- Quaisquer intercorrências (sangramento, suspeita de lesão, necessidade de sutura em via biliar, etc.).
A ausência de descrição detalhada geralmente é interpretada contra o cirurgião, pois abre espaço para a presunção de que padrões técnicos não foram seguidos.
7. Comunicação com o paciente e a família
A forma como o cirurgião comunica a complicação é relevante:
- Negar ou minimizar o evento, ou culpar exclusivamente “o organismo do paciente”, costuma agravar o conflito.
- O recomendado é:
- Explicar com clareza o que ocorreu;
- Deixar claro que a complicação está sendo manejada com todos os recursos disponíveis;
- Documentar o conteúdo da conversa no prontuário.
Transparência e empatia costumam reduzir a judicialização. O oposto também é verdadeiro.
8. Encaminhamento a centros de referência
Outra questão avaliada em perícia é quando e para onde o paciente foi encaminhado:
- Lesões complexas (Strasberg E, perda de segmento biliar, comprometimento vascular) não devem ser reparadas por equipes sem experiência em reconstrução biliodigestiva.
- Reconstruções malsucedidas em série, feitas em hospitais sem expertise, frequentemente são interpretadas como imprudência e imperícia.
O encaminhamento precoce para centro com cirurgião HPB experiente demonstra boa prática e costuma ter peso favorável em eventual demanda judicial.
9. Papel das diretrizes e literatura
Em perícia, é comum a comparação da conduta com:
- Diretrizes societárias (CBCD, WSES, SAGES, EAES etc.);
- Protocolos hospitalares;
- “Estado da arte” à época do procedimento (por exemplo, reconhecimento do CVS como padrão-ouro).
Se o cirurgião seguiu recomendações amplamente aceitas, é difícil sustentar que houve erro grosseiro, mesmo diante de complicação grave.
10. Dano, nexo causal e responsabilidade
Em termos médico-legais, três elementos precisam estar presentes para configurar responsabilidade civil:
- Ato ou omissão culposa (técnica inadequada, falta de diligência, ausência de informação).
- Dano (lesão de via biliar, perda de parte do fígado, invalidez, óbito).
- Nexo causal entre a conduta e o dano.
Exemplo:
– Lesão biliar reconhecida, adequadamente reparada em centro de referência, com boa evolução → pode ser entendida como complicação aceitável.
– Lesão ignorada, sem investigação, evoluindo para sepse e transplante → há forte argumento de falha na assistência.
11. Estratégias de prevenção médico-legal
Em linhas simples:
- Indique bem (indicação precisa e registrada).
- Faça CVS sempre que possível e saiba abandonar a dissecção perigosa.
- Use bailouts (subtotal, fundo–primeiro, conversão) quando necessário; não insista em anatomia impossível.
- Documente tudo (relatório detalhado, fotos/vídeos, evolução diária).
- Investigue sinais de complicação sem demora.
- Encaminhe cedo lesões complexas a centros de referência.
- Comunique com clareza e registre a conversa.
Essas medidas não apenas reduzem o risco de processo, mas principalmente melhoram o cuidado ao paciente, que é o objetivo central.
“O objetivo técnico principal na Colecistectomia, não é a retirada da vesícula biliar, mas proteger a via biliar principal.” Prof. Dr. Ozimo Gama
Hashtags (SEO)
#LesãoDeViaBiliar #ResponsabilidadeMédica #CirurgiaDigestiva #MedicinaLegal #CriticalViewOfSafety