A colecistectomia laparoscópica (LC) é um dos procedimentos mais realizados no mundo, mas ainda carrega um risco significativo de lesão de via biliar (BDI – bile duct injury), especialmente em situações inflamatórias ou anatômicas complexas. Nas últimas décadas, o Critical View of Safety (CVS) se consolidou como o padrão-ouro para evitar BDI, porém estudos mostram que sua identificação é altamente subjetiva e frequentemente superestimada pelos cirurgiões.
A inteligência artificial (IA), especialmente por meio de deep learning e visão computacional aplicada a vídeos cirúrgicos, surge como uma ferramenta promissora para padronizar, reconhecer e validar o CVS em tempo real, além de mapear estruturas anatômicas e zonas seguras e de risco durante a LC.
Este artigo resume de forma clara e aplicada o estado da arte da IA na colecistectomia.
IA e o Critical View of Safety (CVS)
Mesmo com o uso disseminado do CVS, a taxa de BDI permanece maior na LC do que na técnica aberta. Estudos revelam um dado alarmante: a maioria dos cirurgiões acredita ter alcançado o CVS, mas uma análise independente mostra o oposto.
- Em um estudo com 1108 LCs, cirurgiões relataram CVS em 80% dos casos.
- Revisores externos encontraram CVS verdadeiro em apenas 10,8%.
- Em todos os casos com BDI, o CVS não havia sido obtido.
A IA foi então proposta como forma de reduzir a subjetividade e melhorar a precisão do reconhecimento anatômico.
Modelos de IA para reconhecimento do CVS
Os primeiros modelos usaram milhares de imagens anotadas por cirurgiões experientes:
- Um deep neural network treinado com 201 vídeos e 2854 imagens alcançou:
- Acurácia: 71,9%
- Precisão: 71,4%
Outro estudo mais recente, com mais de 71 mil imagens, alcançou:
- Precisão: 0,97
- Acurácia: 0,83
Resultados muito superiores aos obtidos por humanos revisando apenas imagens estáticas.
IA para áreas seguras e zonas de risco (Go/No-Go)
O modelo GoNoGoNet, um dos mais influentes, usou semantic segmentation para marcar:
- Go zone — área segura de dissecção
- No-Go zone — região perigosa, associada a BDI
Resultados:
- Acurácia superior a 90% na maioria das estruturas.
- Cirurgiões que avaliaram vídeos com o suporte da IA corrigiram suas anotações em até 26,9%, sendo 70% correções que aumentavam a segurança.
Estudos subsequentes mostraram que:
- Vídeos com BDI tinham 33,6% mais interações em zonas No-Go.
- A IA demonstrou maior sensibilidade para regiões de risco do que o olho humano.
IA para reconhecimento de estruturas anatômicas
Modelos recentes conseguem identificar automaticamente:
- ducto cístico
- ducto biliar extra-hepático
- sulco de Rouvière
- margem inferior do segmento 4 (S4)
Esses pontos são cruciais na prevenção de BDI.
Em um estudo experimental:
- Cirurgiões mudaram sua interpretação anatômica em 25–30% dos casos após ver o vídeo anotado pela IA.
- A maioria considerou as correções mais seguras.
Em outro estudo, o modelo YOLOv3 foi integrado ao sistema laparoscópico da sala cirúrgica:
- Latência de apenas 0,09 s
- Reconhecimento de estruturas em 92% das etapas da LC
Esse é o primeiro passo real para um “copiloto cirúrgico” intraoperatório.
IA na identificação das fases cirúrgicas
Modelos baseados em redes temporais (MS-TCN, ResNet50, Cholec80) alcançaram:
- Acurácia de 78% a 91% na identificação das fases da LC
- Melhor desempenho nas etapas críticas:
- dissecção do triângulo de Calot
- clipagem
- liberação do leito da vesícula
Entretanto, eventos adversos diminuem o desempenho:
- Sem complicações: ~90%
- Com perfuração da vesícula: 87%
- Com grande vazamento biliar: 77%
Limitações atuais da IA na LC
As principais barreiras identificadas nos estudos:
1. Anotações humanas inconsistentes
• Pequeno número de cirurgiões anotadores
• Variabilidade inter-observador
• Falta de padronização global
2. Datasets pequenos e monocêntricos
• Reduz a generalização dos modelos
• Dificulta adaptação para diferentes câmeras, óticas e técnicas
3. Dificuldade com casos complexos
• Inflamação severa
• Cirurgias com fibrose, gordura densa ou sangramento
• Mudança de ângulo da ótica
4. Desafios práticos no intraoperatório
• Flicker de ROIs
• Distração visual
• Confiabilidade limitada em visão ampliada ou com fumaça
5. Falta de integração nativa
Apenas um estudo conectou a IA diretamente ao sistema laparoscópico (EndoALPHA).
Perspectivas Futuras
- Sistemas dual-AI integrados ao console laparoscópico
– Reconhecimento simultâneo de estruturas + fases cirúrgicas. - ROI dinâmico com “tiles” inteligentes, reduzindo flicker e adaptando-se a limites anatômicos.
- Combinação IA + ICG, ampliando reconhecimento além das capacidades isoladas de cada método.
- Incorporação ao treinamento cirúrgico e simulação, especialmente para residentes.
- Criação de guideline global para anotação, validação e uso clínico da IA.
- Suporte intraoperatório em tempo real, semelhante a um copiloto de aviação.
Conclusão
A inteligência artificial aplicada à colecistectomia laparoscópica está avançando rapidamente, com resultados promissores para:
- melhorar a identificação anatômica
- reforçar zonas de segurança
- padronizar o Critical View of Safety
- apoiar o treinamento e reduzir o risco de lesões de via biliar
Embora nenhum sistema esteja pronto para substituição completa do julgamento cirúrgico, o conjunto de evidências sugere que a IA será, em breve, parte essencial da estratégia global para aumentar a segurança da LC.
Como toda tecnologia emergente, o sucesso dependerá de:
- validação multicêntrica
- integração prática ao workflow operatório
- aceitação e liderança dos cirurgiões
A IA não substituirá o cirurgião.
Mas cirurgiões que usam IA substituirão os que não usam.