Introdução
A litíase biliar é uma complicação frequente após a cirurgia bariátrica, especialmente em procedimentos que resultam em perda ponderal rápida, como o bypass gástrico em Y-de-Roux (RYGB) e a gastrectomia vertical (sleeve). A incidência de formação de cálculos pode atingir 30–40% nos primeiros 12 a 18 meses, com até 15% dos pacientes evoluindo com sintomas ou complicações como colecistite aguda, pancreatite biliar ou coledocolitíase. O manejo adequado depende do tipo de procedimento bariátrico, da anatomia reconstruída e da apresentação clínica.
Mecanismos Fisiopatológicos
A rápida perda de peso induz:
- Supersaturação biliar por colesterol,
- Diminuição da motilidade da vesícula biliar,
- Aumento de mucinas e nucleação,
- Redução da ingesta lipídica estimuladora de contração biliar.
Tais fatores explicam por que a litíase se desenvolve principalmente nos primeiros 6–12 meses pós-operatórios.
Quando Suspeitar e Quando Intervir
1. Paciente assintomático com cálculos
Não há indicação de colecistectomia profilática na maioria dos centros. A conduta é expectante, exceto em casos especiais:
- Cálculos > 1 cm,
- Vesícula completamente preenchida,
- História prévia de pancreatite biliar,
- Paciente com acesso cirúrgico futuro dificultado.
Alguns grupos utilizam ursofalk (ácido ursodesoxicólico) 300–600 mg/dia por 6 meses, capaz de reduzir a incidência de litíase sintomática, sobretudo em RYGB.
2. Paciente sintomático (cólica biliar ou colecistite leve)
A conduta é colecistectomia laparoscópica, idealmente realizada por cirurgião com experiência em pacientes pós-bariátricos, que apresentam:
- Adhesões frequentes,
- Alterações anatômicas de troca de porta,
- Maior fragilidade tecidual.
3. Colecistite aguda moderada/grave
Seguir o protocolo de Tokyo Guidelines:
- Antibióticos,
- Colecistectomia de urgência se possível,
- Drenagem percutânea em casos selecionados.
4. Pancreatite biliar
Após estabilização clínica, realizar colecistectomia.
O timing depende do tipo de bariátrica:
- Sleeve: anatomia normal → colecistectomia na mesma internação.
- Bypass gástrico: alta chance de coledocolitíase → investigar colédoco antes de operar.
Coledocolitíase no Paciente Bariátrico: Como Abordar?
A abordagem depende profundamente da anatomia pós-cirúrgica:
A. Gastrectomia Vertical (Sleeve)
Anatomia do duodeno e papila mantida.
→ CPRE convencional possível.
Tratamento padrão:
- CPRE diagnóstica + terapêutica,
- Esfincterotomia,
- Balão/ Basket,
- Colecistectomia subsequente.
B. Bypass Gástrico em Y-de-Roux (RYGB)
É o cenário mais desafiador. O acesso à papila é bloqueado pela alça alimentar.
Opções:
- CPRE por enteroscopia de duplo balão
- Técnica exigente, limitada a centros avançados.
- Sucesso ~70%.
- CPRE transgástrica laparoscópica
- A via mais resolutiva em muitos centros.
- Procedimento combinado: laparoscopia cria gastrotomia no estômago excluído → endoscopista acessa a papila.
- Alta taxa de sucesso > 95%.
- CPRE guiada por EUS (EDGE)
- Criação de uma fístula temporária entre o pouch e o estômago excluído usando LAMS.
- Opção moderna e altamente eficaz.
- Exige endoscopista avançado.
- Exploração cirúrgica da via biliar
- Via transcística ou coledocotomia laparoscópica, quando experiência disponível.
Quando Operar Antes da Bariátrica?
Indicações de colecistectomia prévia:
- Cálculos sintomáticos,
- Cálculos > 1,5 cm,
- Vesícula em porcelana,
- Pólipos > 1 cm,
- Suspeita de malignidade,
- História prévia de pancreatite biliar.
Para pacientes assintomáticos, a tendência atual é não operar previamente, exceto quando o acesso futuro pode ser especialmente difícil (superobesidade com grande parede abdominal ou barreira logística).
Pontos-Chave
- A litíase biliar é comum após cirurgia bariátrica (30–40%).
- Colecistectomia profilática não é indicada rotineiramente.
- A abordagem depende do tipo de cirurgia:
- Sleeve → CPRE convencional possível.
- Bypass → técnicas avançadas (enteroscopia, EDGE, CPRE transgástrica).
- O tratamento deve ser individualizado e multidisciplinar.
- A cirurgia bariátrica exige planejamento prévio quanto ao risco de litíase.
Conclusão
A litíase biliar no pós-operatório de cirurgia bariátrica não é apenas frequente, mas também clinicamente relevante, podendo gerar quadros graves como pancreatite e colangite. O sucesso do manejo está em reconhecer o tipo de reconstrução do trato gastrointestinal, antecipar dificuldades técnicas e atuar com abordagem multidisciplinar envolvendo cirurgião bariátrico, cirurgião hepatobiliar e endoscopista avançado.
“A cirurgia moderna exige não apenas técnica, mas estratégia.” — Adaptado de Halsted