De forma direta e objetiva: na maioria dos casos, sim — a reconstrução cirúrgica com hepáticojejunostomia em Y-de-Roux é considerada o tratamento definitivo e com melhores resultados de longo prazo para estenose biliar tardia pós-colecistectomia.
Mas a resposta completa exige algumas nuances importantes.
1. Conceito e Epidemiologia
A estenose biliar tardia pós-colecistectomia decorre, em geral, de lesão térmica, isquemia ou transecção parcial do ducto hepático comum/cístico ou confluência hepática.
Ela pode se manifestar meses ou anos após a cirurgia com:
- Icterícia recorrente
- Colangite
- Elevação persistente de FA/GGT
- Dilatação de vias biliares no ultrassom ou colangiorressonância
2. Por que o tratamento endoscópico nem sempre é suficiente?
Em estenoses benignas não cirúrgicas (pancreatite crônica, pós-litíase, estenoses papilares), a dilatação endoscópica com múltiplos stents plásticos ou stents metálicos totalmente cobertos funciona bem.
Mas na estenose tardia pós-colecistectomia, os fatores complicadores são:
- Tecido cicatricial espesso
- Tração e distorção anatômica
- Possibilidade de lesão térmica extensa
- Área de estenose longa e rígida
- Estreitamento próximo à confluência hepática
Por isso, as taxas de sucesso endoscópico caem para 60–70%, com altas taxas de recidiva após retirada dos stents.
3. Papel do tratamento percutâneo
A drenagem trans-hepática com balão + stents internos/externos pode ser útil em:
- Pacientes instáveis com colangite
- Estenoses de baixo grau
- Pacientes com contraindicação cirúrgica
Mesmo assim, o sucesso definitivo gira entre 40–60%, com necessidade de múltiplos procedimentos ao longo de meses.
4. A cirurgia reconstrutiva é o padrão‐ouro?
Sim.
Para a maioria das estenoses tardias pós-lesão biliar, a hepáticojejunostomia em Y-de-Roux é o tratamento mais eficaz e duradouro.
Por quê?
- É realizada acima da área lesada, em tecido saudável
- Contorna a cicatriz isquêmica
- Oferece ampla anastomose mucosa–mucosa
- Tem taxa de sucesso definitiva de 85–95% quando realizada por cirurgião hepatobiliar experiente
- Risco de re-estenose é < 10%
A literatura mostra que quando o tratamento cirúrgico é realizado por equipes especializadas, a sobrevida livre de reintervenção supera amplamente as opções endoscópicas/percutâneas.
5. Quando a cirurgia NÃO é o melhor caminho?
A cirurgia pode não ser a opção ideal em:
- Paciente com cirrose avançada descompensada
- Coledocostomia prévia complicada
- Idoso frágil com alto risco anestésico
- Doença oncológica avançada
- Estenose mínima abaixo da confluência com bom acesso endoscópico
Nestes casos, endoscopia/percutâneo são estratégias paliativas ou de manutenção.
6. O que diz a prática atual?
Lesão biliar tardia pós-colecistectomia = melhor tratada com hepáticojejunostomia em Y-de-Roux.
O tratamento endoscópico pode ser tentado se a anatomia permitir, mas:
- há risco alto de falha,
- risco de múltiplas colangites,
- maior necessidade de reintervenções.
A abordagem ideal é sempre multidisciplinar, envolvendo cirurgião hepatobiliar, endoscopista avançado e equipe de imagem.
Conclusão — Resposta objetiva à pergunta
Sim. A cirurgia reconstrutiva (hepáticojejunostomia em Y-de-Roux) é, na maioria dos casos, a melhor opção — e a única capaz de oferecer solução definitiva para estenose biliar tardia pós-colecistectomia.
Endoscopia e abordagem percutânea têm papel importante em casos selecionados, mas sua eficácia é limitada e frequentemente transitória.
“A correção definitiva é tarefa do cirurgião experiente; o paliativo, do improviso.”