Dilatações assintomáticas do colédoco

1. Introdução

A dilatação do colédoco é um achado frequente em ultrassom abdominal, tomografia ou colangioressonância, muitas vezes incidental e sem correlação clínica direta. O grande desafio é distinguir dilatações benignas fisiológicas de dilatações que representam doença biliar subjacente (coledocolitíase, estenose, tumor periampular).

Apesar de ser assintomática, nunca deve ser ignorada. A propedêutica adequada evita diagnósticos tardios de patologias graves, especialmente colangiocarcinoma hiliar, tumor de cabeça de pâncreas e ampuloma.


2. Quais valores definir como “dilatação”?

Critério clássico:

  • Colédoco > 6 mm em pacientes com vesícula biliar íntegra.

Ajustes por idade:

  • +1 mm por década acima de 60 anos.

Após colecistectomia:

  • Até 10 mm pode ser considerado fisiológico.

Pós-bariátrica (bypass gástrico):

  • 8–10 mm pode ser considerado normal pelo menor estímulo colecisto-pancreático.

3. Causas de Dilatação Assintomática

A. Causas benignas e fisiológicas

  • Idade avançada
  • Pós-colecistectomia
  • Uso crônico de opioides
  • Pós-esfincterotomia
  • Pós-cirurgia anatômica complexa (ex.: derivação biliar)

B. Causas patológicas silenciosas

(perigosas e frequentemente subdiagnosticadas)

  • Coledocolitíase “oculta” (microcálculos, barro biliar)
  • Estenose biliar benigna
  • Neoplasia periampular
  • Tumor de cabeça de pâncreas
  • Colangiocarcinoma hiliar ou distal
  • Pancreatite autoimune
  • Doença parasitária (em áreas endêmicas)

4. Propedêutica: Como investigar?

1. História clínica e exame físico

Avaliar:

  • Colangite prévia
  • Cólica biliar antiga
  • Histórico de pancreatite
  • Cirurgias prévias
  • Perda ponderal
  • Icterícia transitória
  • Uso de opioides

2. Exames laboratoriais

  • Bilirrubinas
  • FA e GGT (mais sensíveis)
  • TGO/TGP
  • Amilase/lipase se suspeita de pancreatite
  • IgG4 em casos selecionados

Mesmo pequenas elevações sugerem obstrução parcial.


3. Exames de imagem (ordem racional)

A. Ultrassom (triagem inicial)

  • Dilatação intra e extra-hepática?
  • Sinais indiretos de cálculo?
  • Pâncreas visível?

B. Colangioressonância (CRM)

Exame padrão para investigação inicial.
Detecta:

  • Estenoses
  • Cálculos pequenos
  • Massa periampular
  • Dilatação ductal segmentar

C. Tomografia (TC) com contraste

Boa para:

  • Tumor pancreático
  • Linfonodos
  • Anatomia geral

D. Endoscopia digestiva alta

Para excluir lesões ampulares.


4. Exames de alta precisão (casos selecionados)

A. EUS (Ecoendoscopia)

Melhor método para microcálculos e tumores pequenos (<1 cm).
Indicado quando:

  • CRM inconclusiva
  • Dilatação persistente sem diagnóstico
  • Suspeita de tumor periampular

B. CPRE

Não é exame diagnóstico.
Usar apenas quando tratamento é provável (ex.: cálculo visto no EUS).

C. Colangioscopia

Para:

  • Estenose indeterminada
  • Avaliação direta da mucosa
  • Suspeita de malignidade
  • Biópsia dirigida

5. Conduta: Quando tratar e quando observar?

A. Dilatação fisiológica

(Nenhuma alteração laboratorial ou estrutural)
Apenas seguimento clínico
Repetir imagem em 6–12 meses.

B. Dilatação com alterações laboratoriais

→ Investigar com CRM → EUS
Se persistirem enzimas alteradas, mesmo sem imagem positiva:
→ EUS + CPRE terapêutica (se necessário)

C. Cálculo ou barro biliar detectado

→ CPRE com extração
→ Avaliar necessidade de colecistectomia (se vesícula presente)

D. Estenose benigna

→ Dilatação + stent plástico (técnica sequencial)
ou
→ Avaliação cirúrgica se estenose alta ou recorrente

E. Suspeita de malignidade

→ EUS + colangioscopia + biópsia
→ Encaminhar para equipe HPB

F. Anatomia alterada (bypass gástrico)

→ Preferir EUS transgástrico ou CPRE via gastrotomia laparoscópica
(técnica híbrida)


6. Quando a dilatação assintomática é grave?

Alta preocupação quando há:

  • Dilatação > 12–15 mm
  • Dilatação progressiva ao longo do tempo
  • Dilatação segmentar intra-hepática
  • Achado de “cut-off” abrupto no colédoco
  • Elevação de FA/GGT persistente
  • Perda de peso, anemia ou prurido

Esses pacientes merecem investigação completa e rápida.


Conclusão

A dilatação assintomática do colédoco nunca é um achado trivial. Embora parte delas seja fisiológica, uma fração significativa pode representar doença biliar silenciosa, incluindo neoplasias de alta letalidade.

A propedêutica deve ser estruturada, escalonada e guiada pelo risco, começando com CRM, laboratórios e evoluindo para EUS, CPRE ou colangioscopia conforme necessário.

Tratamento depende da causa:

  • Fisiológica → observar.
  • Litíase → tratar.
  • Estenose → dilatar ou reconstruir.
  • Tumor → investigação HPB.

“Via biliar dilatada sem explicação é diagnóstico que não pode esperar.”

Deixe aqui seu comentário, dúvida e/ou sugestão