Colangioscopia intraoperatória: Quando, como e quem deve fazer?

1. Quando indicar colangioscopia intraoperatória?

A colangioscopia intraoperatória é um recurso de alta precisão para avaliação direta do ducto biliar. As indicações reais são pontuais e estratégicas, especialmente quando a decisão cirúrgica depende de informação imediata e fidedigna.

Principais indicações:

A. Suspeita de coledocolitíase residual

  • Coledoco dilatado (>8 mm)
  • Icterícia pré-operatória
  • Pancreatite biliar
  • Colangite
  • USG/CRM sugerindo cálculo, mas sem certeza
  • Colangiografia inconclusiva ou contraditória

Objetivo: excluir ou remover cálculo residual imediatamente.


B. Avaliação de estenoses biliares indeterminadas

(Ao explorar a via biliar ou durante cirurgia hepato-biliar complexa).

  • Diagnóstico e caracterização de estenoses benignas vs malignas
  • Verificação de margem em cirurgia oncológica
  • Lesão biliar pós-colecistectomia para avaliar extensão

C. Cirurgias biliares complexas

  • Cisto de colédoco
  • Colangiocarcinoma (para avaliar extensão intraductal)
  • Doenças pediátricas biliares (em centros especializados)

D. Reoperação ou reexploração das vias biliares

  • Falha prévia de abordagem endoscópica
  • Anatomia alterada (Bypass gástrico – Y-de-Roux, gastrectomia)
  • Dúvida intraoperatória sobre presença de cálculos

2. Como realizar a colangioscopia intraoperatória?

Existem dois sistemas utilizados:


A. Colangioscopia por canal operatório (Endoscópio flexível)

Técnica mais comum no intraoperatório.

Passo a passo:

  1. Acesso por coledocotomia ou pela coto do cístico dilatado.
  2. Lavado contínuo com soro morno.
  3. Introdução suave do colangioscópio sob visão direta.
  4. Avaliação sistemática:
    • Hepático comum → hepáticos → lobares
    • Permeabilidade
    • Presença de cálculos, barro, estenoses, massa
  5. Remoção de cálculos com:
    • Basket
    • Balão
    • Irrigação pressurizada

Vantagens:

  • Alta definição
  • Visualização direta da mucosa
  • Detecção de cálculos pequenos e impactados

B. Sistema de colangioscopia digital descartável (SpyGlass®)

Mais caro, porém mais eficiente.

Vantagens:

  • Resolução superior
  • Canal de trabalho amplo
  • Permite biópsia dirigida
  • Indispensável para estenoses indeterminadas e tumores biliares

Pontos técnicos fundamentais

  • Pressão baixa de irrigação para evitar bacteremia e extravasamento
  • Evitar traumatismo da mucosa
  • Manter campo biliar estéril (antibiótico profilático)
  • Documentar achados com vídeo/foto

3. Quem deve realizar a colangioscopia intraoperatória?

A resposta é direta: cirurgião do aparelho digestivo com experiência em via biliar, endoscopista ou cirurgião hepatobiliar.

Pré-requisitos ideais:

  1. Treinamento formal em cirurgia hepatopancreatobiliar (HPB)
  2. Domínio de exploração laparoscópica e aberta da via biliar
  3. Capacidade de interpretar estenoses, cálculos e lesões mucosas
  4. Familiaridade com equipamentos ópticos flexíveis e rígidos
  5. Treinamento conjunto com endoscopia terapêutica

Em centros de referência, a colangioscopia intraoperatória é feita:

  • Pelo cirurgião HPB, quando conduzindo colecistectomias complexas ou revisões de via biliar;
  • Pelo cirurgião do aparelho digestivo, quando abordando coledocolitíase em anatomia alterada;
  • Pelo endoscopista avançado, quando há integração com cirurgia laparoscópica (procedimentos híbridos).

4. A colangioscopia intraoperatória substitui a colangiografia?

Não.
Ela complementa.

  • Colangiografia = método de rastreio
  • Colangioscopia = método de confirmação e tratamento

A decisão correta é: colangioscopia quando a colangiografia NÃO responde tudo.


5. Situações em que deve ser evitada

  • Coledoco muito fino (<5 mm)
  • Infecção ativa não controlada
  • Dúvida anatômica que contraindique manipulação
  • Falta de equipamento ou profissional treinado

Conclusão

A colangioscopia intraoperatória é uma ferramenta precisa, segura e extremamente útil na via biliar, desde que usada no contexto certo.

Quando usar?

  • Suspeita de cálculo residual
  • Estenose indeterminada
  • Cirurgias biliares complexas
  • Revisões e reoperações

Como usar?

  • Através de coledocotomia ou coto do cístico
  • Com ótica flexível ou sistema digital
  • Com técnica delicada, irrigação e limpeza sistemática

Quem deve fazer?

  • Cirurgião HPB ou cirurgião do aparelho digestivo experiente em via biliar, ou endoscopista avançado em centros híbridos.

“O cirurgião domina o que vê. Ver o ducto biliar por dentro é decidir com precisão.”

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