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Transplante Hepático na Insuficiência Hepática Aguda

Critérios, Sobrevida e Complicações


Introdução

A insuficiência hepática aguda (IHA) é uma condição rara, mas potencialmente fatal, caracterizada pela instalação rápida de disfunção hepática em pacientes previamente hígidos, acompanhada de coagulopatia e encefalopatia. Sem tratamento definitivo, a mortalidade ultrapassa 80% em muitos cenários. O transplante hepático é a única terapia curativa em casos graves, sendo fundamental identificar precocemente quais pacientes se beneficiam da cirurgia. Para isso, critérios clínicos e laboratoriais foram desenvolvidos e validados, destacando-se os de King’s College e Clichy, além de ferramentas modernas como o MELD score.


Critérios Prognósticos

  • King’s College Criteria: o mais utilizado mundialmente, com alta especificidade. Diferencia critérios para intoxicação por paracetamol e demais etiologias.
  • Critérios de Clichy: aplicados sobretudo em hepatite fulminante viral, baseados na dosagem do fator V associado à encefalopatia.
  • MELD score: escore inicialmente criado para hepatopatia crônica, mas útil também em IHA; valores ≥ 30 associam-se a prognóstico ruim.

Sobrevida e Complicações Pós-Transplante

  • Sobrevida:
    • 1 ano: 65–80%
    • 5 anos: 55–70%
    • Melhor prognóstico em intoxicação por paracetamol, pior em hepatite fulminante viral e drogas idiossincráticas.
  • Complicações:
    • Infecções (até 40%)
    • Disfunção primária do enxerto (10–15%)
    • Trombose da artéria hepática (~5%)
    • Complicações biliares (10–20%)

Apesar da maior mortalidade precoce, pacientes que superam o período inicial apresentam sobrevida comparável aos transplantados por doença crônica.


Tabela Comparativa dos Principais Critérios e Resultados

Critério / IndicadorDefinição / ParâmetroAplicaçãoSobrevida Pós-TH (1 ano / 5 anos)Principais Complicações
King’s College (Paracetamol)pH < 7,30 OU INR > 6,5 + Cr > 3,4 + encefalopatia III–IVMais utilizado mundialmente65–80% / 55–70%Infecção, disfunção precoce do enxerto
King’s College (Outras causas)INR > 6,5 OU ≥ 3 critérios (idade, etiologia, intervalo, INR, bilirrubina)Prognóstico em IHA não-paracetamol65–75% / 55–65%Infecção, complicações biliares
ClichyEncefalopatia + Fator V < 20% (<30 anos) ou < 30% (>30 anos)Mais usado em hepatite fulminante viral60–70% / 50–60%Disfunção primária do enxerto
MELD ≥ 30Escore baseado em INR, bilirrubina e creatininaComplementar à decisãoVariável conforme etiologiaComplicações infecciosas e vasculares

Conclusão

O transplante hepático é a única alternativa eficaz para pacientes com IHA sem perspectiva de regeneração espontânea. A aplicação correta dos critérios de King’s College e Clichy, associada ao uso de escores como o MELD, permite identificar precocemente os candidatos ideais. Apesar da maior taxa de complicações infecciosas e disfunção do enxerto no pós-operatório imediato, os resultados a longo prazo são satisfatórios, com sobrevida em 5 anos alcançando 70% em centros especializados. A decisão deve sempre ser multidisciplinar, precoce e baseada em critérios clínico-laboratoriais, maximizando as chances de sucesso.


“A oportunidade de indicar o transplante não se repete: reconhecer o momento certo é o maior desafio do hepatologista e do cirurgião.” — Adaptado de Roger Williams

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Neoadjuvância no Adenocarcinoma de Pâncreas: Evidências e Aplicações Clínicas

Introdução

O adenocarcinoma de pâncreas é uma das neoplasias mais agressivas do trato gastrointestinal, caracterizada por diagnóstico tardio, baixa ressecabilidade e alta taxa de recorrência. Apesar dos avanços técnicos e terapêuticos, a sobrevida global em 5 anos permanece inferior a 10%. A terapia neoadjuvante (quimioterapia com ou sem radioterapia antes da cirurgia) vem ganhando papel central, especialmente em tumores localmente avançados, borderline ressecáveis e, em casos selecionados, em tumores ressecáveis. Seu objetivo é tratar micrometástases precoces, aumentar taxas de ressecção R0 e selecionar pacientes com melhor biologia tumoral para cirurgia.


Racional da Neoadjuvância

  • Controle sistêmico precoce: trata micrometástases antes da cirurgia.
  • Seleção de pacientes: evita cirurgias em pacientes com progressão rápida da doença.
  • Maior chance de completar quimioterapia: até 50% dos pacientes não recebem adjuvância após pancreatectomia devido à morbidade.
  • Aumento da taxa de R0: margens negativas são fator prognóstico chave.

Evidências Recentes

  • Borderline ressecável: ensaios mostram benefício claro. Regimes como FOLFIRINOX ou gemcitabina/nab-paclitaxel aumentam ressecabilidade e sobrevida global.
  • Ressecáveis: ainda em estudo, mas meta-análises sugerem equivalência ou até superioridade em pacientes com alto risco prognóstico (ex.: CA 19-9 elevado).
  • Radioterapia: pode melhorar controle local, mas seu papel isolado ainda é controverso.

O estudo PREOPANC (fase III, multicêntrico) demonstrou que quimiorradioterapia neoadjuvante não aumentou complicações maiores, fístula pancreática ou mortalidade pós-operatória, reforçando a segurança da estratégia.


Critérios para Indicar Neoadjuvância em Tumores Ressecáveis

  1. Marcadores de alto risco:
    • CA 19-9 >150–250 U/mL
    • Tumor ≥35 mm
    • Albumina ≤3,5 g/dL
    • Relação neutrófilo-linfócito ≥3,5
    • Dupan-2 ≥750 U/mL
  2. Achados clínicos e radiológicos:
    • Linfonodomegalia suspeita
    • Invasão vascular incipiente
    • Sinais sistêmicos de agressividade
  3. Preocupação com adesão ao adjuvante:
    • Pacientes frágeis ou comorbidades que dificultem completar quimioterapia após cirurgia.

Taxa de Abandono da Neoadjuvância

  • Varia entre 15–30% nos principais estudos.
  • Motivos: toxicidade da quimioterapia, progressão tumoral, deterioração clínica ou recusa do paciente.
  • Estratégia exige acompanhamento multidisciplinar próximo e suporte intensivo para reduzir perdas.

Segurança Cirúrgica

Estudos randomizados e coortes demonstram que a neoadjuvância não aumenta o risco de complicações pós-operatórias, incluindo fístula pancreática, infecção intra-abdominal e mortalidade hospitalar. Em alguns trabalhos, observou-se até redução da incidência de fístula pancreática clinicamente relevante.


Pontos-Chave para a Prática

  • Padrão atual: recomendado em borderline ressecáveis.
  • Ressecáveis: indicado em casos com fatores de alto risco.
  • Regimes preferenciais: FOLFIRINOX (pacientes com bom performance status); gemcitabina/nab-paclitaxel em casos selecionados.
  • Multidisciplinaridade é essencial: decisão deve envolver oncologia, cirurgia, radiologia e gastroenterologia.

Conclusão

A terapia neoadjuvante no adenocarcinoma de pâncreas representa um avanço significativo, transformando a abordagem tradicional baseada em cirurgia seguida de adjuvância. Atualmente, é padrão para tumores borderline ressecáveis, considerada em tumores ressecáveis com alto risco prognóstico, e investigada em ensaios clínicos como alternativa ao tratamento clássico. O futuro caminha para uma estratificação mais refinada baseada em biomarcadores, imagem funcional e resposta precoce ao tratamento, permitindo individualizar a neoadjuvância e maximizar o benefício oncológico.


“O futuro da cirurgia oncológica não é apenas retirar o tumor, mas entender a biologia da doença e intervir no momento certo.” — Veronesi

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