Arquivos Mensais: agosto \14\-03:00 2025

Colecistostomia: Indicações e Resultados na Prática Cirúrgica

Introdução

A colecistostomia é um procedimento fundamental no arsenal terapêutico para o manejo da colecistite aguda em pacientes de alto risco cirúrgico. Enquanto a colecistectomia laparoscópica permanece como tratamento definitivo, a colecistostomia surge como uma alternativa segura, minimamente invasiva e eficaz, especialmente em pacientes com comorbidades significativas ou contraindicações à anestesia geral.

No Brasil, onde o acesso à saúde ainda enfrenta desafios estruturais, a colecistostomia percutânea tem ganhado espaço como opção terapêutica em hospitais públicos e privados. Estudos locais destacam sua aplicação em pacientes idosos, portadores de doenças cardiovasculares avançadas ou em uso de anticoagulantes, perfis frequentes em nossa população.

Este artigo abordará as indicações, técnicas, complicações e resultados da colecistostomia, com foco na prática do cirurgião do aparelho digestivo.


Indicações da Colecistostomia

A colecistostomia é indicada principalmente em:

  1. Colecistite aguda refratária ao tratamento clínico em pacientes com alto risco cirúrgico (ASA ≥ III).
  2. Pacientes com distúrbios de coagulação (em uso de anticoagulantes ou com cirrose hepática).
  3. Colecistite acalculosa em pacientes críticos (ex.: internados em UTI).
  4. Gestantes no terceiro trimestre com colecistite aguda.
  5. Obstrução biliar em pacientes inaptos para CPRE.

Segundo as Diretrizes de Tóquio (TG13), a colecistostomia é recomendada para colecistite moderada (grau II) ou grave (grau III) não responsiva a antibioticoterapia. No Brasil, dados do Colégio Brasileiro de Cirurgiões apontam que até cerca de 5% dos casos de colecistite aguda podem ser tratados inicialmente com colecistostomia, especialmente em hospitais de referência.

Técnicas de Colecistostomia

  1. Percutânea (Guiada por US/TC):
  • Via transhepática (preferencial para reduzir vazamento biliar).
  • Via transperitoneal (menos utilizada devido a maior risco de complicações).
  • Técnica de Seldinger ou trocarte direto.
  1. Laparoscópica:
  • Opção quando a colecistectomia é inicialmente planejada, mas abortada devido a inflamação intensa.
  1. Cirúrgica Aberta:
  • Reservada para falha das técnicas minimamente invasivas.

Aplicação na Cirurgia Digestiva

A colecistostomia tem papel crucial no manejo escalonado da colecistite aguda:

  • Fase aguda: Alívio da sepse biliar.
  • Fase definitiva: Decisão entre remoção do cateter ou colecistectomia tardia.

Estudos brasileiros demonstram que 30-40% dos pacientes submetidos à colecistostomia evoluem para colecistectomia eletiva, enquanto os demais mantêm o cateter como tratamento definitivo, principalmente idosos e pacientes com comorbidades graves.


Pontos-Chave para o Cirurgião Digestivo

  1. Seleção adequada do paciente é fundamental para evitar complicações.
  2. Via transhepática reduz vazamento biliar e deslocamento do cateter.
  3. Antibioticoterapia pré e pós-procedimento é essencial para evitar sepse.
  4. Remoção do cateter após 4-6 semanas (avaliar maturação do trajeto fistuloso).
  5. Monitorar complicações:
  • Deslocamento do cateter (27%).
  • Vazamento biliar (3-6%).
  • Abscesso peri-hepático (9%).

Conclusões Aplicadas à Prática

A colecistostomia é uma ferramenta valiosa no tratamento da colecistite aguda em pacientes de alto risco. No cenário brasileiro, onde a população envelhecida e as comorbidades cardiovasculares são prevalentes, seu uso deve ser considerado de forma individualizada.

Embora a colecistectomia laparoscópica permaneça como padrão-ouro, a colecistostomia oferece uma alternativa segura e eficaz, reduzindo mortalidade e tempo de internação. Futuros estudos prospectivos, como o CHOCOLATE trial, trouxeram mais evidências sobre seu papel definitivo.

“A cirurgia é a arte de salvar vidas, mas também de saber quando não operar.”William Stewart Halsted

Gostou?Nos deixe um comentário ✍️, compartilhe em suas redes sociais e/ou mande sua dúvida pelo 💬 Chat On-line em nossa DM do Instagram.

Colecistostomia #CirurgiaDigestiva #ColecistiteAguda #MedicinaCirúrgica #ResidênciaMédica

Câncer Incidental da Vesícula Biliar após Colecistectomia Laparoscópica: Diagnóstico e Conduta Cirúrgica

Introdução

O câncer de vesícula biliar é a neoplasia maligna mais comum do trato biliar e o quinto tumor mais frequente do trato gastrointestinal. Apesar disso, apresenta baixa incidência global — cerca de 3 casos por 100.000 habitantes/ano nos EUA — e geralmente é diagnosticado em estágios avançados, com taxa de ressecabilidade de apenas 25% e sobrevida média de 3 a 11 meses. O cenário muda quando a doença é detectada precocemente, especialmente nos casos de câncer incidental da vesícula biliar (IGBC), diagnosticado após colecistectomia laparoscópica (LC) realizada por outra indicação. O IGBC ocorre em 0,3–2% das LC e representa cerca de dois terços dos casos potencialmente curáveis.


Epidemiologia e Relevância Clínica

  • Incidência: 0,3–2% das colecistectomias laparoscópicas.
  • Impacto prognóstico: sobrevida de 5 anos pode atingir 92–100% nos estágios iniciais (T1a).
  • Risco de disseminação: perfuração vesicular e derrame biliar intraoperatório elevam o risco de recidiva peritoneal e em portais (até 40%).

Diagnóstico Pós-Operatório

Quando o câncer é detectado no exame histopatológico após a colecistectomia, o primeiro passo é:

  1. Revisar o laudo histológico — confirmando profundidade de invasão (T) e status da margem do ducto cístico.
  2. Estadiamento por imagem — geralmente com tomografia computadorizada (TC) de tórax, abdome e pelve, podendo ser complementada por ressonância magnética (RM/MRCP).
  3. Avaliar presença de doença irressecável — até 20% dos pacientes candidatos à reoperação apresentam doença avançada na reexploração.

Conduta por Estadiamento T

  • Tis / T1a
    • LC isolada é curativa se não houve perfuração vesicular nem extravasamento biliar.
    • Metástases linfonodais ocorrem em apenas 2% dos casos.
  • T1b / T2
    • Indicam re-resecção radical, incluindo:
      • Reseção não anatômica de segmentos hepáticos 4b e 5 (margem ≥ 2–3 cm).
      • Linfadenectomia do ligamento hepatoduodenal.
      • Avaliação da margem do ducto cístico; se positiva, ampliar ressecção.
    • Sobrevida de 5 anos: 60–100% (T1b) e 54–100% (T2).
  • T3 / T4
    • Ressecção curativa apenas se R0 possível.
    • Sobrevida de 5 anos em doença nodal negativa: até 77%.
    • Em linfonodos positivos além do hepatoduodenal: prognóstico extremamente reservado (<1%).

Suspeita Intraoperatória

Fatores que devem acender o alerta:

  • Vesícula endurecida e espessada.
  • Infiltração hepática.
  • Paciente com mais de 60 anos, especialmente com quadro de empiêma vesicular.
  • Achados de imagem pré-operatória: espessamento focal ou difuso da parede, linfonodomegalias, vesícula pouco distendida.

Conduta recomendada:

  • Se possível, interromper a cirurgia e encaminhar para estadiamento completo antes de definir tratamento definitivo.
  • Evitar biópsia intraoperatória devido a risco de erro amostral e disseminação.
  • Em casos de alta suspeita e condições clínicas favoráveis, realizar colecistectomia radical imediata.

Técnica da Re-Ressecção Radical

  • Abordagem convencionalmente aberta (há relatos laparoscópicos e robóticos).
  • Ressecção hepática (segmentos 4b e 5).
  • Linfadenectomia hepatoduodenal.
  • Ressecção do ducto cístico ± hepático comum se margem comprometida.
  • Não há benefício comprovado na ressecção sistemática dos portais de entrada da laparoscopia.

Pontos-Chave para o Cirurgião Digestivo

  • Sempre encaminhar espécimes de colecistectomia para exame histopatológico.
  • Documentar integridade da vesícula e ausência de extravasamento biliar.
  • Em IGBC T1b ou superior, a re-resecção precoce oferece ganho substancial de sobrevida.
  • Envolver equipe de cirurgia hepatobiliar e oncologia desde o início.
  • RO (ressecção com margem livre) é o fator mais importante para prognóstico.

Conclusão Aplicada

O IGBC representa uma oportunidade única de diagnóstico precoce de um tumor tipicamente letal. A conduta correta, baseada no estadiamento, pode transformar um achado acidental em um caso curável. A chave está em:

  • Reconhecimento imediato do risco.
  • Estadiamento preciso.
  • Tratamento radical oportuno.

“O cirurgião deve ter a coragem de parar quando é cedo demais e a ousadia de agir quando ainda é tempo.” — Halsted

Gostou ❔ Nos deixe um comentário ✍️, compartilhe em suas redes sociais e|ou mande sua dúvida pelo 💬 Chat On-line em nossa DM do Instagram.


#CâncerDeVesícula #Colecistectomia #CirurgiaHepatobiliar #OncologiaCirúrgica #EducaçãoMédicaContinuada

Colecistectomia Laparoscópica em Pacientes Cirróticos: Estratégias, Truques e Cuidados Especiais

Introdução

A prevalência de colelitíase em pacientes com cirrose é significativamente maior que na população geral, atingindo quase um terço desses indivíduos. Em cerca de 80% dos casos, os cálculos são assintomáticos; no restante, manifestam-se como cólica biliar, colecistite ou icterícia obstrutiva. Apesar de a colecistectomia laparoscópica ser considerada padrão-ouro no tratamento da colelitíase sintomática, a presença de cirrose impõe desafios técnicos e riscos adicionais, como maior propensão a sangramento, infecção e insuficiência hepática pós-operatória. Em pacientes com Child-Pugh A ou B, a laparoscopia é segura quando realizada por equipes experientes e em centros com suporte especializado. Já na classe C, o risco é proibitivo, sendo preferível manejo não cirúrgico ou encaminhamento para avaliação de transplante hepático.


Avaliação Pré-Operatória e Estratificação de Risco

A decisão cirúrgica deve considerar:

  • Classificação de Child-Pugh: risco de mortalidade de 10% (A), 30% (B) e até 80% (C) em cirurgias não hepáticas.
  • MELD score: preditor acurado de mortalidade; acima de 25, a mortalidade em 90 dias pode chegar a 90%.
  • Presença de hipertensão portal: aumenta risco de sangramento e dificulta a dissecção.
  • Comorbidades associadas: insuficiência renal, cardiopatia e doença pulmonar podem agravar prognóstico.

Exames complementares recomendados incluem doppler hepático para avaliação vascular, tomografia ou ressonância contrastada para análise anatômica e rastreio de neoplasias associadas.


Indicações e Momentos da Cirurgia

  • Colelitíase sintomática em Child A ou B, sem colecistite aguda grave, é indicação para colecistectomia laparoscópica.
  • Colecistite aguda: pode-se optar por tratamento inicial não operatório (antibioticoterapia, drenagem percutânea ou stent transpapilar) e cirurgia eletiva tardia.
  • Achado incidental de cirrose durante colecistectomia: considerar abortar procedimento e encaminhar para avaliação multidisciplinar, exceto se quadro for emergencial.

Truques e Estratégias Intraoperatórias

1. Acesso e posicionamento

  • Uso preferencial da técnica aberta (Hasson) para o primeiro trocárter, evitando lesão da veia umbilical recanalizada.
  • Colocação do porto de trabalho no quadrante superior esquerdo, para reduzir risco de sangramento da parede abdominal.
  • Documentar grau de cirrose e hipertensão portal com fotos intraoperatórias.

2. Dissecção e controle vascular

  • Expectativa de aderências neovascularizadas; dissecção com Harmonic® ou Ligasure™ reduz sangramento.
  • No Calot difícil devido a colaterais, considerar colecistectomia parcial: deixar parte da parede vesicular aderida ao fígado, com cauterização da mucosa para prevenir mucocele.
  • Em situações críticas, usar clipes Hem-o-lok®, Endoloop® ou sutura intracorpórea no coto cístico, preferindo ligadura segura antes da secção.

3. Estratégias alternativas

  • Abordagem fundus-first pode ser útil, mas requer atenção para não lesar ducto biliar.
  • Conversão para cirurgia aberta deve ser encarada como decisão de segurança, e não falha técnica.

4. Controle de sangramento

  • Ter à disposição argon beam coagulator, hemostáticos tópicos e instrumentos de cirurgia aberta.
  • Monitorar constantemente o campo cirúrgico; portos devem ser removidos sob visão direta.

Cuidados Pós-Operatórios

  • Evitar sobrecarga hídrica para prevenir ascite e complicações respiratórias.
  • Monitorar função renal e eletrólitos; hiponatremia é frequente.
  • Utilizar albumina e dieta hipossódica conforme orientação hepatológica.
  • Vigilância para complicações como sangramento, vazamento biliar e encefalopatia hepática.

Conclusão

A colecistectomia laparoscópica em pacientes cirróticos não é uma contraindicação absoluta, mas exige seleção criteriosa, preparo pré-operatório rigoroso e técnica cirúrgica refinada. Pacientes Child-Pugh A ou B, operados por equipes experientes em centros terciários, apresentam resultados seguros e comparáveis à população geral em termos de mortalidade. O conhecimento de truques técnicos, manejo de complicações e decisão sobre momento ideal da cirurgia são determinantes para o sucesso.

“O bom cirurgião sabe o que pode fazer; o excelente sabe o que deve fazer.” — Halsted

Gostou ❔ Nos deixe um comentário ✍️, compartilhe em suas redes sociais e|ou mande sua dúvida pelo 💬 Chat On-line em nossa DM do Instagram.


#ColecistectomiaLaparoscopica #CirroseHepatica #CirurgiaHepatobiliar #LaparoscopiaAvançada #EducaçãoMédicaContinuada