Falência Hepática Terminal: Aspectos Clínicos e Implicações Cirúrgicas

Introdução

A falência hepática terminal é uma síndrome clínica grave, comumente associada a doenças hepáticas crônicas, particularmente a cirrose. Ela abrange tanto formas agudas, como a hepatite fulminante, quanto a falência hepática aguda sobre crônica, levando a altas taxas de mortalidade. Essa condição se apresenta com uma constelação de sintomas e sinais indicativos de insuficiência hepática, destacando-se pela sua importância epidemiológica devido à sua frequência, impacto na morbidade e mortalidade, e ao consumo substancial de recursos de saúde.

No Brasil, a carga de cirrose causada pelo vírus da hepatite C ocupava a 22ª posição em 1990 em termos de Anos de Vida Perdidos (AVP). Em 2010, subiu para a 15ª posição, enquanto a cirrose induzida pelo álcool subiu da 32ª para a 25ª posição, destacando a crescente prevalência das principais causas de falência hepática crônica. As principais etiologias da cirrose incluem abuso crônico de álcool, infecção pelo vírus da hepatite C e esteato-hepatite não alcoólica (NASH). A falência hepática aguda, por sua vez, é desencadeada principalmente por infecção pelo vírus da hepatite A e hepatite medicamentosa.

Desenvolvimento

A cirrose representa o estágio patológico final de uma variedade de agressões hepáticas crônicas. Histologicamente, é caracterizada por fibrose extensa, acompanhada pela formação de nódulos regenerativos, levando à hipertensão portal e à falência hepática. O fígado é central para diversas funções vitais, incluindo a síntese de proteínas (albumina e fatores de coagulação), produção de glicose durante o jejum (gliconeogênese hepática), síntese de lipídios e lipoproteínas, e a biotransformação de substâncias endógenas (amônia, hormônios esteroides, bilirrubinas) e exógenas (drogas e toxinas).

O diagnóstico clínico da insuficiência hepática baseia-se principalmente na presença de fatores de risco para doença hepática crônica, sintomas gerais e neuropsiquiátricos, e achados de exame físico sugestivos de falência hepática. Ao contrário da insuficiência renal, onde marcadores quantificáveis como ureia e creatinina estão disponíveis, a insuficiência hepática é avaliada por meio de sintomas, achados físicos e marcadores indiretos de disfunção hepática, como hipoalbuminemia e tempo de protrombina prolongado.

Pacientes com cirrose podem se apresentar clinicamente com cirrose compensada ou descompensada. A cirrose compensada é frequentemente diagnosticada incidentalmente ou durante a investigação de sintomas inespecíficos como mal-estar geral, anorexia, perda de peso, fraqueza ou dispepsia. Em contraste, a cirrose descompensada se manifesta com icterícia, ascite, encefalopatia hepática ou hemorragia varicosa.

Aplicação na Cirurgia Digestiva

A falência hepática terminal impõe desafios significativos no manejo cirúrgico de pacientes com doenças digestivas. Os cirurgiões devem avaliar cuidadosamente o grau de disfunção hepática e seu impacto potencial nos resultados cirúrgicos. O transplante hepático continua sendo o tratamento definitivo para pacientes com falência hepática terminal; no entanto, o momento da cirurgia, a otimização pré-operatória e o manejo de complicações como hipertensão portal e coagulopatia são fundamentais. Os cirurgiões devem estar atentos a sinais clínicos como eritema palmar, telangiectasias, ginecomastia e atrofia testicular, que, embora não exclusivos da doença hepática, são altamente sugestivos de cirrose. Asterixis, ou “tremor das asas,” frequentemente indica doença hepática avançada e encefalopatia hepática, servindo como um marcador de mau prognóstico.

Pontos-Chave

  • A falência hepática terminal, frequentemente resultante de doença hepática crônica, é uma condição crítica com alta morbidade e mortalidade.
  • A cirrose é o resultado patológico comum de diversas agressões crônicas ao fígado, caracterizada por fibrose e nódulos regenerativos.
  • O diagnóstico de insuficiência hepática é complexo, baseando-se em sinais clínicos, sintomas e marcadores indiretos da função hepática.
  • Na prática cirúrgica, a falência hepática requer avaliação pré-operatória cuidadosa e manejo adequado, especialmente no contexto do transplante hepático.
  • Sinais clínicos importantes incluem eritema palmar, telangiectasias, ginecomastia e asterixis, que ajudam no diagnóstico e prognóstico da doença hepática.

Conclusões Aplicadas à Prática Cirúrgica Digestiva

O manejo de pacientes com falência hepática terminal na cirurgia digestiva exige uma abordagem multidisciplinar, equilibrando os riscos e benefícios da intervenção cirúrgica. O transplante hepático, embora ofereça uma cura potencial, requer planejamento meticuloso e consideração de fatores específicos do paciente, como a gravidade da disfunção hepática e a presença de comorbidades. Os cirurgiões devem estar atentos às sutis manifestações clínicas da falência hepática e adaptar sua abordagem para otimizar os resultados dos pacientes.

Como disse Hipócrates: “Curar é uma questão de tempo, mas às vezes também é uma questão de oportunidade.” O mesmo se aplica ao manejo cirúrgico da falência hepática terminal — tempo e oportunidade são fundamentais.

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