Lições Eternas para a Logística de Saúde Militar
Prof. Dr. Ozimo Gama
1. O Elo entre o Passado e a Prontidão Operacional
A Medicina Operacional transcende a mera assistência de retaguarda; ela se consolida como um multiplicador de poder de combate indispensável para a manutenção do efetivo combatente. No cenário de defesa contemporâneo, a preservação da integridade física e psíquica da tropa é o fiel da balança que sustenta a viabilidade de campanhas em ambientes de conectividade limitada e logística hostil, como a Região Amazônica, ou em missões sob a égide de organismos internacionais. Aprender com a história militar não é um exercício diletante, mas um imperativo para a Prontidão Operacional. O objetivo é garantir que o apoio de saúde seja resiliente o suficiente para operar sob o atrito do combate, assegurando a “Manutenção do Poder de Combate” — princípio basilar para que o soldado retorne à linha de fogo com a celeridade que a manobra exige. Embora as tecnologias cinéticas evoluam, os princípios de salvar vidas sob fogo permanecem como constantes doutrinárias desde a Antiguidade.
2. Das Cruzadas ao Campo de Batalha Primitivo: O Nascimento do Cuidado sob Fogo
Os conflitos da Idade Média, notadamente as Cruzadas, forçaram a Medicina a migrar do conforto clerical para a brutalidade das intervenções cirúrgicas de campanha. Um exemplo emblemático da “Medicina Operacional” rudimentar ocorreu em agosto de 1097, quando o Duque Godofredo de Bouillon, ao enfrentar um urso selvagem próximo a Antioquia, feriu gravemente a própria perna com sua espada. O sangramento arterial massivo exigiu que os médicos da época agissem minuto a minuto sob extrema pressão. Utilizando técnicas de cauterização com ferro em brasa — inspiradas nos ensinamentos de Albucasis — os cirurgiões estancaram a hemorragia, permitindo que o líder sobrevivesse para retomar o comando meses depois. A organização dos hospitais pela Ordem de São João (Hospitaleiros) em Jerusalém e Acre representou o embrião da triagem e da higiene militar. Estes “xenodóquios” separavam pacientes por diagnóstico, demonstrando que a gestão de leitos e a separação de feridos traumáticos de doentes infectocontagiosos eram vitais para a sustentabilidade da força.
Inteligência Técnica Imediata e Sensível (ITIS): O episódio de Godofredo de Bouillon ilustra que o sucesso do apoio de saúde depende da capacidade de decisão técnica sob estresse. Para o oficial moderno, a lição é clara: sem intervenção imediata no ponto de ferimento, a taxa de retorno ao serviço é nula. A sustentabilidade das campanhas de longo prazo nas Cruzadas só foi possível devido a essa estruturação de cuidados que, embora rudimentar, já visava a preservação do componente humano como recurso estratégico.

3. A Revolução de Dominique Jean Larrey: O Surgimento da Logística Moderna
O Barão Dominique Jean Larrey, cirurgião-chefe da Guarda Imperial de Napoleão, é legitimamente o “pai da medicina operativa moderna”. Sua visão transformou o apoio de saúde de um serviço passivo na Zona de Retaguarda (ZRE) para uma força de intervenção proativa na vanguarda.
- Inovação das Ambulances Volantes: Larrey revolucionou a Evacuação de Feridos (Evoz) ao criar ambulâncias leves que retiravam os feridos ainda sob o fogo inimigo, combatendo a “inatividade administrativa” que abandonava soldados no campo.
- Cirurgia de Urgência e Técnica: Defensor do débridement précoce (debridamento precoce) e das feridas laissées ouvertes (deixadas abertas) para prevenir a gangrena gasosa, Larrey era dotado de uma velocidade técnica prodigiosa, capaz de realizar a desarticulação de um ombro em apenas dois minutos — perícia vital em um Posto de Socorro (PS) operando sem anestesia moderna.
- Ética e Neutralidade: Precursor da Cruz Vermelha, Larrey estabeleceu o “Hôpital destiné à l’ennemi” em Valladolid, tratando prisioneiros espanhóis e ingleses com a mesma dignidade que os franceses.
Napoleão reconheceu sua importância ao declarar: “O homem mais honesto que já conheci… uma imagem do verdadeiro homem de bem”.
ITIS: : A mobilidade de Larrey alterou o moral da tropa (segurança psicológica). No Exército Brasileiro, essa herança reflete-se na busca pela “Hora de Ouro”. O legado de Larrey ensina que o oficial médico deve ser um “chirurgien combattant de l’avant”, integrado à manobra e não apenas um espectador na retaguarda.

4. Século XIX à Era Contemporânea: Da Enfermagem de Nightingale à Evacuação Aeromédica
A Guerra da Crimeia trouxe Florence Nightingale e a revolução da sanidade, mas foi a inovação técnica de Antonius Mathijsen, em 1851, com o gesso (Plaster of Paris), que transformou a logística de saúde. A estabilização eficaz de fraturas permitiu que a Cadeia de Evacuação se tornasse mais resiliente e longa; fraturas estáveis reduziam o risco de embolia gordurosa e trauma secundário durante o transporte, permitindo fluxos logísticos mais audazes. No século XX, o advento dos Mobile Army Surgical Hospitals (MASH) e do helicóptero na Coreia e Vietnã redefiniu a velocidade do apoio. Atualmente, o protocolo Tactical Combat Casualty Care (TCCC) padroniza intervenções salvadoras de vida no ponto de ferimento, focando na tríade: controle de hemorragia, manejo de via aérea e prevenção de hipotermia.
ITIS”: A evolução tecnológica, da tração animal ao Medevac, exige uma coordenação logística impecável de insumos críticos, como sangue e oxigênio. A lição para o planejamento atual é que a tecnologia só é eficaz se houver uma rede de suprimento integrada que acompanhe a velocidade do transporte.

5. O Cenário Brasileiro: Doutrina e o Papel das Forças Armadas
No Brasil, a doutrina é balizada pelo manual MD42-M-04 (Logística de Saúde em Operações Conjuntas), que estabelece os Níveis de Apoio e a interoperabilidade entre o Exército, a Marinha e a Força Aérea. O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), através do seu Batalhão Logístico (BtlLogFuzNav), opera unidades de saúde móveis com alta capacidade expedicionária, aplicando os princípios de Larrey em ambientes litorâneos e ribeirinhos. Na Amazônia, o planejamento exige o uso intensivo de Inteligência Médica (conforme a doutrina NATO AJMEDP-3). Isso significa mais do que tratar doenças; implica mapear a “capacidade hospitalar local” em municípios remotos e monitorar “vetores endêmicos” (como a malária e a leishmaniose). Sem a Inteligência Médica para antecipar ameaças sanitárias, uma força pode ser dizimada antes mesmo do primeiro contato cinético com o inimigo.
ITIS”: A Inteligência Médica é uma ferramenta de antecipação estratégica. Em operações na selva, conhecer o terreno e o perfil epidemiológico local permite ao oficial de saúde dimensionar a Cadeia de Evacuação de forma a garantir que a distância não seja uma sentença de morte para o combatente.

6. Planejamento Logístico Atual
- A Proximidade do Apoio (O Legado do PS): A estabilização deve ocorrer no Nível 1 de apoio, o mais próximo possível da linha de contato, para maximizar a sobrevivência e o retorno à linha de fogo.
- Mobilidade e Evoz: O sistema de saúde deve ser tão ágil quanto a força de manobra. O apoio estático é apoio vulnerável.
- Triagem como Decisão Ética e Tática: Em situações de baixas em massa (MASCAL), a triagem rápida e imparcial é a única ferramenta capaz de otimizar recursos limitados.
- Inteligência Médica (AJMEDP-3): Antecipar ameaças ambientais e mapear a infraestrutura civil local é essencial para a resiliência logística em teatros de operações isolados.
- Unicidade da Cadeia Logística: Do suprimento de sangue à evacuação aeromédica, a logística de saúde deve ser tratada como um sistema unitário e ininterrupto.
7. A Missão Continua
A Medicina Operacional é uma ciência de adaptação, coragem e sacrifício. Do cirurgião que operava sob o frio da Berezina ao oficial médico que planeja o apoio em um Pelotão Especial de Fronteira na Amazônia, o compromisso com a vida do combatente permanece o mesmo. A logística de saúde é o sistema circulatório da força; seu sucesso garante que o Brasil disponha de militares prontos, resilientes e protegidos.
Leitura Recomendada
- BRASIL. Ministério da Defesa. MD42-M-04: Logística de Saúde em Operações Conjuntas. Brasília: MD, 2015.
- GABRIEL, R. A.; METZ, K. S. A History of Military Medicine. New York: Greenwood Press, 1992.
- LARREY, Dominique Jean. Mémoires de chirurgie militarie et campagnes. Baltimore: Joseph Cushing, 1814.
- MCCALLUM, Jack E. Military Medicine: From Ancient Times to the 21st Century. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2008.
- MITCHELL, Piers D. Trauma and Surgery in the Crusades. London: University of London, 2002.
- ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DO ATLÂNTICO NORTE (NATO). AJMEDP-3: Allied Joint Medical Doctrine for Medical Intelligence. Brussels: NATO Standardization Office, 2015.
- SOUBIRAN, A. Le Baron Larrey: Chirurgien de Napoléon. Paris: Fayard, 1966.
- VAYRE, P.; FERRANDIS, J. J. Dominique Larrey (1766-1842), Chirurgien militaire – Baron d’Empire. e-mémoires de l’Académie Nationale de Chirurgie, v. 3, n. 1, p. 37-46, 2004.