Comunicação Cirúrgica

Padrões, Tensões e Implicações para a Segurança do Paciente na Cirurgia Digestiva

Introdução
A comunicação cirúrgica constitui elemento fundamental da prática operatória contemporânea. Mais do que mera troca de informações técnicas, ela representa o mecanismo central de coordenação relacional entre cirurgião, anestesista, instrumentador, circulante e demais membros da equipe. Na cirurgia digestiva — campo marcado por procedimentos de alta complexidade, como gastrectomias, hepatectomias e colectomias — a qualidade da comunicação influencia diretamente os desfechos clínicos, a formação de residentes e a cultura de segurança do paciente.

Estudos observacionais e revisões sistemáticas recentes demonstram que falhas comunicativas contribuem para mais de 70% dos eventos sentinelas em saúde, conforme dados da The Joint Commission. Na sala de operação, análises de 421 interações revelaram falhas em aproximadamente 30% das trocas entre membros da equipe, gerando ineficiência, tensão e risco aumentado ao paciente (Dingley et al., 2008). Neste artigo examinaremos algunmas evidências científicas sobre o tema, com ênfase em três investigações paradigmáticas, visando oferecer subsídios educativos para cirurgiões digestivos e equipes multidisciplinares.

Padrões de Comunicação Observados em Equipes Cirúrgicas
Pesquisa etnográfica conduzida por Tørring et al. (2019), que acompanhou 39 equipes cirúrgicas (85 profissionais) durante substituições de quadril e joelho — procedimentos com paralelos diretos à cirurgia digestiva —, identificou quatro padrões distintos de interação:

  • Comunicação proativa e intuitiva: presente em cirurgias complexas, caracterizada por compartilhamento de objetivos, respeito mútuo e antecipação de problemas.
  • Comunicação silenciosa e comum: típica de procedimentos rotineiros, marcada por instruções breves e atmosfera de familiaridade.
  • Comunicação desatenta e ambígua: marcada por foco individual, tom ambíguo e, por vezes, ironia ou desrespeito explícito.
  • Comunicação contraditória e altamente dinâmica: oscilações rápidas entre respeito e rispidez, levando muitos profissionais ao silêncio estratégico.

Esses padrões ilustram que a comunicação eficaz transcende palavras: envolve linguagem corporal, tom de voz e alinhamento de expectativas coletivas.

Locais de Tensão Comunicativa e Seus Efeitos Formativos
Lingard et al. (2002), em estudo com 128 horas de observação em 35 procedimentos cirúrgicos, mapearam cinco temas recorrentes de tensão: tempo, segurança/esterilidade, recursos (equipamentos), papéis da equipe e controle da situação. Tais tensões surgem com frequência entre cirurgião sênior e equipe de enfermagem, impactando diretamente os novatos. Os residentes e estudantes reagem predominantemente de duas formas: imitação (mimicry) do estilo autoritário ou retirada (withdrawal), silenciando-se. Ambas as respostas perpetuam ciclos de conflito interprofissional em vez de promover resolução colaborativa. Na cirurgia digestiva, onde o tempo de isquemia, sangramento e integridade anastomótica são críticos, tais dinâmicas podem comprometer a qualidade assistencial e o aprendizado.

Aspectos Emocionais e o Clima da Sala Cirúrgica
Revisão de escopo realizada por Lee et al. (2023), que analisou 10 estudos qualitativos e quantitativos, reforça que o centro cirúrgico é ambiente emocionalmente carregado. O tom e a atitude do líder — geralmente o cirurgião — definem o “clima” da sala. Cultura hierárquica e estresse inibem o speaking up, especialmente entre enfermeiros e residentes. Quando o cirurgião manifesta frustração por meio de gritos ou culpas, instalam-se medo, redução da moral e falhas comunicativas que elevam o risco de eventos adversos. A revisão destaca que o controle emocional não é aspecto acessório, mas competência clínica essencial. Em cirurgias digestivas de grande porte, onde a pressão temporal e a complexidade técnica são elevadas, a regulação emocional do cirurgião torna-se fator protetor da segurança do paciente.

Implicações Práticas para a Cirurgia Digestiva Atual
A integração dos achados demonstra que competência técnica isolada é insuficiente. O cirurgião digestivo contemporâneo deve cultivar inteligência emocional e habilidade retórica para fomentar coordenação relacional. Estratégias como briefing pré-operatório, debriefing estruturado e treinamento em comunicação não-técnica (CRM — Crew Resource Management) reduzem significativamente as falhas identificadas nos estudos citados. Na prática diária, reconhecer os padrões descritos por Tørring, mitigar tensões mapeadas por Lingard e gerir o clima emocional destacado por Lee constitui caminho direto para melhores desfechos, menor burnout da equipe e formação mais robusta de novos cirurgiões.

Conclusão
A comunicação cirúrgica não é mero instrumento operacional; é o alicerce da segurança do paciente e da excelência assistencial na cirurgia digestiva. Os estudos analisados evidenciam que padrões comunicativos saudáveis, gestão de tensões e controle emocional reduzem riscos, otimizam processos e fortalecem o desenvolvimento profissional. Investir nesse domínio representa avanço científico e ético irrenunciável.

“A cirurgia não é um desempenho individual, mas um trabalho de equipe.” Sir Berkeley Moynihan (1865-1936)

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Prof. Dr. Ozimo Gama
Cirurgião do Aparelho Digestivo
Editor Científico – The Surgeon: A Cirurgia Digestiva Atual

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